Deus





Me lembro da primeira imagem que fiz de Deus na vida. Era ainda bem criança, lá pelos 5 ou 6 anos, e na escola dominical da igreja que frequentava, a Irmã Genita, uma senhora de seus 60 anos que era professora das turmas infantis, nos apresentou Deus como um senhor sério, muito sábio, que observa a tudo, mas bondoso. Lembro muito bem de ela dizer "falem com Deus, ele adora ouvir o que vocês dizem, ele só não vai responder, mas ele adora ouvir a voz de vocês", e por causa disso eu orava todas as noites, pois sabia que ele gostava de me ouvir contar sobre a escola, sobre a lição de casa que eu tinha que fazer, e pedir desculpas por não ter entregue a lição completa de matemática - eu nunca levava. Eu tinha uma ideia bem definida de Deus e Jesus: Deus era um senhor de meia idade, talvez uns 50 anos, sério, de poucas palavras, que mais observava, mas bonzinho, e Jesus, que devia ser mais novo, talvez uns 30 anos, era o "gente boa", de sorriso fácil, que conversava sempre e adorava festa. Não muito alto e barba curta mas bem cuidada, Jesus era tipo um tio legal que leva o sobrinho pra tomar sorvete no domingo. Quando orava a noite, falava primeiro pra deus as coisas mais sérias do meu dia a dia - meu medo de algum colega de classe, minha tristeza por ver minha mãe cansada ao chegar do trabalho - e para Jesus eu falava as coisas divertidas, na certeza de que ele estava ouvindo e rindo comigo. Tinha ainda o Espírito Santo, pra completar a Santíssima Trindade, que eu nunca entendi muito bem quem era, mas sabia que existia, então quando orava não sabia muito bem o que dizer a ele e me sentia culpado por isso, pois conversava tanto com Deus e com Jesus, e para o Espírito Santo só sobravam as últimas palavras, quando o sono já era mais forte que eu. 

Aí veio a adolescência, e com ela a imagem de Deus foi distorcida. O Deus que eu via como um homem sério, mas bom, passou a ser um homem exigente, incontornável, controlador, que estava presente em todo o tempo, fiscalizando cada deslize, cada pensamento malicioso, cada desejo "impuro", pronto para dar ao Diabo licença total e irrestrita para agir em minha vida caso eu vacilasse, mesmo nas pequenas coisas, pois para deus "não existe pecadinho nem pecadão, é pecado do mesmo jeito". Diga isso para um adolescente de 13 anos que esta descobrindo a atração pelo sexo oposto e com os hormônios à flor da pele. O resultado é traumático. Traumática foi também a ideia que fiz de Deus nessa fase. Passei a ter o pior sentimento que se pode ter em relação a alguém: medo. Eu tinha medo de deus. Muito, muito medo. Eu via pessoas sendo expostas na igreja diariamente, tendo seus deslizes revelados na frente de todos, e morria de medo de ele expor ao público as olhadas que eu dava na bunda e no decote da professora Ana Paula - ela foi minha musa da adolescência. Ah, como eu tinha medo que ele me expusesse ao ridículo por eu sentir atração pela Andreia, menina da igreja que estudava comigo e com quem eu sempre fazia trabalhos, mais pelo desejo de estar perto e sentir o perfume dela do que pelo apoio que ela dava, uma vez que eu sempre fazia tudo sozinho. Esse medo irracional de Deus me acompanhou até a pós-adolescência e extrapolou para outras áreas da minha vida além da religiosa, mas isso não vem ao caso agora. Mas foi muito mais traumático que do que dá pra contar num post de blog. 

Com a fase adulta e agora com mais bagagem intelectual, a imagem do deus vingativo e punitivo do antigo testamento se foi, mas o deus bom da infância não voltou. Até tentam me vender a ideia de um Deus que ama sem restrições, que está pronto a apoiar a todos e sempre de mãos abertas a quem queira recomeçar, mas essa visão não cola mais pra mim. Na verdade, não é essa visão que não cola mais. É a ideia de Deus que se apagou. 

Não me declaro ateu, pois acredito que "há mais coisas entre o ceu e a terra do que supõe nossa vã filosofia", e não acredito que após a morte encontraremos apenas um "cruel e silencioso nada", como dizia Antônio Abujamra. Mas minha concepção do religioso está mais confusa do que eu gostaria que estivesse. Excluí Deus da minha vida. Não oro mais, não pauto minhas decisões na "vontade divina" nem o consulto para fazer nada. Vivo como um ateu, mas sem ser. 

Prefiro acreditar em Deus como a força que me faz levantar de manhã, que me faz sair da cama e tomar meu banho para trabalhar. Penso em Deus como a sensação boa que tenho ao ouvir a risada gostosa de uma criança, ou no amor que meu cachorro sente por mim. Penso em Deus como o calor do sol depois de vários dias frios, ou na brisa depois de muito tempo exposto ao calor intenso. Vejo Deus no semblante de satisfação de um mendigo ao comer algo que ofereci. Encontro Deus na satisfação pessoal que sinto ao entender algo que estava difícil. Sinto Deus quando canto uma música que gosto. Vejo Deus na risada da mesa de bar cheia de cerveja com amigos. Deus está no churrasco de domingo com pagode da família que não se reunia há tempos. Deus está no abraço de um pai e filho. Deus está no beijo do casal apaixonado que não se via há dias. 

Se Deus é tudo isso, não preciso orar a ele nem pedir que ele me acompanhe. Eu é que tenho que levá-lo para meu dia a dia, para minha rotina. Eu levo Deus quando troco a cara amarrada por um sorriso. Levo Deus quando cumprimento o porteiro do prédio, o motorista, o policial, o varredor de rua. Levo Deus quando espalho bondade, quando evito uma briga, ou quando dou uma palavra a quem sofre. Levo Deus quando agradeço o que me fazem. Levo Deus quando reivindico o que me é de direito. Levo Deus quando cumpro com minhas obrigações. 

Talvez essa seja uma visão mais adulta, mas muito parecida com a do Deus que a irmã Genita me ensinou aos 5 anos. E é essa visão que quero manter e passar adiante.