Eu prometo





Ainda não te conheço. Não sei onde você mora, com quem mora, não sei da sua vida, seus costumes. Não sei sua fisionomia. Se é loira, morena, ruiva, cor natural ou com tintura, alta ou baixinha, magrinha ou gordinha, se faz o tipo "gostosa" ou não, se tem dentes perfeitos ou se ainda usa aparelho. Se tem o cabelo liso ou encaracolado. Não sei se seus lábios são pequenos ou grandes, se seus olhos são castanhos ou verdes, se seu rosto é oval ou quadrado. Não sei se tem personalidade forte ou se é maleável. Se gosta de ter sempre a última palavra em tudo ou se está sempre aberta a outras opiniões. Não sei o que você gosta de fazer aos domingos à tarde, nem nos sábados à noite. Não sei se você gosta de café fraco, bife malpassado, Coca Light. Não sei se já tem quase trinta ou se é adolescente. Não sei quem são seus amigos, se você é tímida como eu ou expansiva, se é popular ou passa despercebida, se gosta de baladas ou prefere comer pizza em casa. Não sei quem são seus pais, se são gente boa ou implicantes que pegam no pé da filha, não sei se tem irmãos ou irmãs, se já tem sobrinhos, quem são seus tios, tias, avós, primos. Não sei quais são seus costumes. Não sei se vem de família tradicional ou moderna, se a família é perfeita ou se tem brigas entre tios. Não sei quais são seus medos. Não sei o que te faz sentir receio, quais são seus limites físicos e psicológicos e o que te assusta. Não sei quais foram seus relacionamentos anteriores, se sofreu com eles, se amou muito, se foi enganada, se enganou, se chegou ao noivado, se jurou amor eterno, se usou aliança, se talvez foi até casada. 

Não, eu não sei nem quem é você. Talvez nem saiba se você existe, de fato. E você também não sabe quem eu sou. Pode ser que você também nem saiba que eu existo. Mas te prometo uma coisa: quando te conhecer e você me der a chance de te conhecer, vou te amar como nunca amei ninguém na vida.

Prometo ser a base da sua vida, para onde você sabe que pode recorrer sempre que precisar. Prometo ser o ombro quando você precisar desabafar sobre sua irmã que anda falando mal de você pra sua mãe, ou da colega do trabalho que quer te passar a perna. Prometo ser o seu "maior amigo, melhor amor". Prometo ser o braço que vai te sustentar e proteger de cair quando você tropeçar na rua. Prometo te dar um beijo sempre ao acordar e dizer que você está linda, mesmo se estiver despenteada e com os olhos sujos. Prometo deixar você mudar meu visual, simplesmente pra atacar de estilista e me usar como cobaia. Prometo não olhar a bunda nem o decote de outra mulher quando estiver com você (quando você não estiver por perto não garanto muita coisa...). Prometo te acompanhar na festa de aniversário da sua amiga, mesmo que me sinta um peixe fora d'água no meio de tanta gente desconhecida. Prometo esperar pacientemente quando você entrar só pra dar uma olhada no sapato da promoção da vitrine e demorar 45 minutos experimentando todos os modelos da loja. Prometo não sujar o tapete da sala de barro quando chegar todo sujo do futebol. Prometo não deixar a tampa do vaso aberta nem a toalha molhada em cima da mesa, e nem os sapatos espalhados pela casa. Prometo reparar quando você cortar as pontinhas do cabelo ou quando fizer as unhas na manicure. Pelo menos vou tentar... Prometo buscar o pão, dar banho no cachorro, abrir a porta do carro pra você sair e segurar sua mão na rua. Prometo te ligar na hora do almoço e mandar SMS durante o dia apenas pra dizer que te amo. Prometo acariciar seu cabelo e beijar seu rosto carinhosamente, quando você se deitar sobre meu ombro pra ver a novela. Prometo não reclamar quando sua amiga chata vier te visitar. Prometo não falar mal da sua mãe. Não na sua frente. 

Na verdade, esqueça tudo isso. Não vou prometer nada. Tanto porque certas coisas eu nao vou conseguir cumprir, mesmo. Vou prometer apenas uma coisa: te amar do jeito que você é, com sua personalidade e sua "bagagem". Cumprindo essa promessa,todo o resto vai acontecer como consequência.

Se você quiser alguém pra ser só seu é só não se esquecer: estarei aqui.

Bonzinho





Ele raramente discorda do que alguém diz. Está sempre sorrindo. É paciente quase o tempo todo, e quando se irrita, não demonstra. Evita ao máximo entrar em atrito com as pessoas. Leva desaforo pra casa. Engole seco. É amigo de todo mundo. Cumprimenta o motorista e o cobrador do ônibus, e sorri quando alguém pede desculpas por ter pisado no seu pé. Pede licença pra entrar e sair, está sempre pronto a fazer favores aos outros, agradece quando recebe algo. Quase impossível ouvir um "não de sua boca". Entre as mulheres, é o amigo legal para quem elas desabafam e contam que estão afim de outro cara. Entre os outros caras, é o sem personalidade. 

Ele é tudo isso aos olhos dos outros. Segundo a opinião popular, ele é o "bonzinho". 

Bonzinho é aquele cara que não chama a atenção das pessoas, para quem os outros olham com olhar de pena, e exclamam "ele é tão bonzinho", se por acaso ele virar assunto em alguma roda de amigos. Há os mais céticos que desconfiam da "bondade" do bonzinho, citando ditados de vó como "boi manso que derruba carroça", "lobo em pele de cordeiro", "é dos bonzinhos que eu tenho medo" e por aí vai. Mas na crença popular, o bonzinho é o cara ingênuo, bobo, que pode ser enganado facilmente, que pode ser ludibriado e nem percebe se for ignorado. 

Mas será que o bonzinho é tudo isso mesmo?

Arrisco dizer que em 90% dos casos, não. 

Bonzinho na verdade é o cara que tem preguiça de entrar nas mazelas da relação social, relação essa que insiste em tentar entender o outro e o adaptar ao seu mundo. O bonzinho é o cara que se relaciona superficialmente com todo mundo, não por ser ingênuo, mas por não ter a menor vontade de conhecer melhor quem não faz questão da sua presença. 

O bonzinho sabe que nem todo mundo é seu amigo, que nem todo mundo gosta dele como diz gostar e que nem todo mundo o vê como diz ver. Mas ele prefere manter a cordialidade com todos, pois além de evitar atrito com pessoas desnecessárias, pode filtrar os que vivem ao seu redor; ele distribui amizade, os amigos de verdade correspondem. Ele lança a rede. Os que voltarem são os que ele pode contar. 

O bonzinho tem total consciência de que o mundo é sim complicado, de que as pessoas não são boas e de que a qualquer momento alguém pode querer "ferrar" com sua vida e puxar seu tapete. Nesse caso ser bonzinho vira sua maior defesa; o bonzinho é o último a oferecer riscos, e sendo assim, consegue o que quer sem enfrentar grandes concorrências.

O bonzinho sabe que as mulheres em geral não se interessam por homens como ele. Mas quem disse que ele está interessado em mulheres que preferem os cafajestes? Deixe que elas quebrem a cara com os homens errados. Há, em algum lugar, uma mulher inteligente o suficiente para saber que esse é o tipo de sofrimento que pode ser facilmente evitado se ela tiver mais critérios para escolher seu homem, e dentro desses critérios o bonzinho é o cara que preenche quase todos os requisitos.  

Bonzinho é o cara que tem coisa mais importante pra fazer do que entrar nas discussões vazias e sem sentido que permeiam a rotina da maioria das pessoas, e prefere concordar com tudo a ter que manifestar opinião sobre as coisas ridículas que geralmente são tratadas como sérias por gente vazia e sem conteúdo. 

Bonzinho é o cara que vê todas as pessoas como iguais e merecedoras da mesma atenção, daí dedicar o mesmo tratamento a todos, desde o supervisor até o motorista do ônibus. 

Bonzinho diz sim pra todo mundo não por concordar com tudo e muito menos por ter medo de discordar, mas sim porque sabe que sua opinião própria é questão particular sua, e que é melhor concordar com os outros do que ter de dar satisfação sobre o que pensa.

Bonzinho não tem "paciência de Jó". Ele se irrita sim, se estressa como qualquer outra pessoa, mas ele resolve sua irritação e seu estresse de outro jeito. Em vez de descontar em quem vive ao seu redor ele prefere buscar a fonte da sua irritação e corrigir. 

Bonzinho é o cara que, na verdade, faz de tudo para viver bem. É o que guarda sua energia e emoções para as ocasiões certas, e em todas as outras ignora os fatos com sua suposta bondade. A bondade é sua forma de dizer "dane-se o mundo, eu quero é ficar bem". 

Eu Não Sou Gabriela





Sábado passado estava no metrô quando entrou um rapaz conversando no celular. Bom, "no celular" é modo de falar, pois ele falava tão alto que o vagão inteiro participou da conversa dele. Entre muitas reclamações numa briga tensa com a ex-mulher pelo direito de ver o filho de 5 anos, ele falava em alto e bom: "eu nasci desse jeito, você me conheceu assim e aceitou porque quis. Eu vou morrer assim, sou grosso mesmo, sou estúpido mesmo, sou teimoso mesmo e não vou mudar nunca, quem não gostar de mim desse jeito que vá embora e me deixe em paz".

Como deve ser horrível a vida de quem pensa assim...

Ano passado, no meu aniversário de 30 anos, em meio a uma crise existencial sem precedentes, escrevi que gosto de viver e que quero viver ainda muito tempo, se possível não apenas trinta, mas trinta vezes três. Hoje, completando 31, continuo com a mesma vontade de viver. Estou descobrindo só agora coisas que os outros descobriram há muito tempo atrás, e quero viver essas coisas boas que a vida me oferece. Mas a consciência que tenho esse ano é a de que, para viver com qualidade de vida, preciso estar aberto à mudanças. 

Quero não apenas viver, mas estar atento à minha vida. Perceber as coisas que me acontecem e que acontecem à minha volta e filtrar o que posso absorver e o que devo rejeitar. Perceber o que devo reforçar e o que devo mudar. Há sim coisas em mim que precisam de mudança urgente, hábitos que tenho e preciso abandonar, e coisas que não faço e preciso começar a fazer. Quero estar aberto ao novo em minha vida. Abraçar pessoas que, com a cabeça de antes, eu não abraçaria. Fazer coisas que eu não faria. Ser mais leve. Encarar as coisas com menos seriedade.  

Eu não sou Gabriela e não vou morrer da forma como nasci. Afinal, se fosse pra encerrar a vida da mesma forma como ela começou, que graça teria? O legal da vida são as mudanças. Você se comparar com anos atrás e perceber que muita coisa além da idade mudou; perceber que mudaram "hábitos, lugares, inclusive as pessoas ao redor". O legal de sentir o tempo passar é que frases de efeito como "a vida passa depressa" deixam de ser apenas frases bonitinhas para ser uma constatação. O tempo está passando. Se eu não me atualizar e correr junto, vou apenas assistir a vida passar e ficar para trás. E isso é tudo o que eu não quero.

Preciso sim, me mexer. Me reinventar, me reposicionar. Continuar atualizado. Estar alerta e trazer para mim o que é bom. Se precisar mudar, mudarei. Só não quero ficar para trás na vida. Trinta e um anos denunciam que o tempo não para, mas mostram também que ainda é tempo de pegar o trem, mesmo já em movimento.

Quero mudar para estar apto a aproveitar tudo de bom que a vida oferecer, pois a vida não é um bem renovável. Ela se gasta e não volta mais. Cada tempo perdido é realmente perdido. Como diz José Mujica no vídeo abaixo, que guardo como reflexão para esse aniversário, não se pode comprar vida.

E vamos em frente!


O que é fazer terapia?




Nós brasileiros não temos o hábito de construir sótãos em casa, mas a figura do sótão é bem interessante: o lugar entre o teto e a cobertura de telhas, destinado a tubulações, caixa d’água, instalações elétricas e outras estruturas necessárias para o funcionamento da casa. É geralmente um lugar de difícil acesso, escuro, sem ou com pouquíssima ventilação, isolado do convívio familiar, escondido de tudo e todos, para onde raramente vamos e nunca levamos ninguém (alguém convida o amigo para conhecer o sótão de casa, algo como “oi amiga, você vai adorar meu sótão”?).

O sótão quase sempre tem a função de “depósito” da casa, onde você guarda todo tipo de tralha e cacarecos: coisas que não vai usar mais, mas que não tem coragem de jogar fora, coisas que te trazem boas ou más lembranças, coisas que foram úteis um dia, coisas que pensa que ainda pode usar numa emergência, coisas para doação, mas que nunca são doadas de fato, coisas e mais coisas com as quais você não quer se encontrar diariamente, mas não consegue se desfazer. Aquele móvel velho que foi presente de casamento, aquele vaso de plantas que veio da sua tia-avó, o abajur importado que já não funciona há anos, a enciclopédia Barsa que você usou para o exame de admissão no grupo escolar dos anos 70, o livro de poesias antigo, a decoração infantil do quarto do seu filho que agora tem 30 anos, seus cadernos do tempo de faculdade, o guarda-chuva que tanto te serviu mas que não para mais fechado, o material de eleição do Lula de 1989, o jogo de xícaras já sem alça e cheias de trincos que sua amiga te trouxe da Espanha em 1999. Coisas velhas, coisas antigas.. Simplesmente deixa lá no sótão. Não usa, mas não joga fora; sabe que está lá. Vai que precisa algum dia, né? 

O sótão não é lugar onde se visita com frequência. Aliás, a proposta é exatamente essa: um espaço ali, dentro da sua casa, mas para onde você vai o mínimo possível. Só entra para colocar alguma “nova” tralha que vai se juntar às outras já guardadas lá. Entra, deixa a tralha nova, dá uma olhada rápida nas antigas, fecha o alçapão e volta para a vida normal em família, enquanto o sótão volta a ser o local escuro e sem vida de sempre. 

Mas aí uma hora você percebe que o sótão está cheio demais. Você mal consegue andar por entre as tantas coisas velhas acumuladas ao longo dos anos, e chega a uma conclusão: precisa fazer uma limpeza urgente. Algumas coisas precisam sair dali logo. Você até tem boa vontade e tenta se desfazer de algo; mexe em uma e outra caixa, joga uma embalagem velha fora, mas percebe que limpar seu próprio sótão é mais difícil do que parece, e que sozinho não vai conseguir. 

E chama uma pessoa para te ajudar. 

Não só te ajudar, mas essa pessoa tem total liberdade para indicar o que deve ser mantido e o que deve ir para o lixo no seu sótão. Essa pessoa vai, junto com você, vasculhar suas tralhas, relembrar com você detalhes do passado envolvido em cada objeto encontrado, opinar sobre coisas que aconteceram e os motivos que te levaram a guardar aquela tralha, e te ajudar a encontrar o melhor destino para essas coisas que você não usa mais. 

Aos poucos, com o tempo, você percebe que o sótão vai ficando mais limpo. Num dia você consegue enxergar o piso do sótão, há tanto tempo encoberto de poeira. Num outro percebe que já se desfez de muita coisa velha, e começam a sobrar cantos vazios. Quando se dá conta, já está fazendo planos para o sótão, pois a quantidade de coisas ali guardada é tão pequena que já não justifica mais um espaço bom como aquele servir apenas como depósito de quinquilharias. Começa a planejar uma escada que suba ao sótão, uma boa localização para uma janela, uma boa iluminação e, quem sabe, com um pouco de investimento aquele espaço não vire um confortável quarto para visitas. 

E então você vê pela primeira vez seu velho sótão cheio de tralhas virar um espaço bonito, limpo e útil. 

Isso é fazer terapia!