Igual a Todo Mundo



As pessoas fazem de tudo para serem diferentes. Mudam visual, adotam um novo estilo, aderem à tribos. Até mesmo os mais “comuns”, os “normaizinhos” batem no peito para exaltar as características, mesmo que poucas, que os difere dos outros. Querem se destacar da multidão. Querem ser vistos com outros olhos, de um jeito especial. Alguns, na tentativa de se destacar dos demais, passam a vociferar palavras de ódio contra uma “sociedade morna”, que “faz tudo igual”. Atacam o “comportamento de boiada” e dizem que só os que são diferentes é que tem sucesso na vida. Querem por toda maneira serem reconhecidos por não serem iguais aos demais. 

Eu não. Eu quero mesmo é ser igual a todo mundo. 

Quero me sentar na mesma mesa de bar que todo mundo senta para beber a mesma cerveja que todo mundo bebe nas sextas-feiras à noite, como todo mundo faz. Quero rir das mesmas piadas sem graça que todo mundo ri. Quero comer os mesmos petiscos que todo mundo come. Quero ver o filme que todo mundo mundo está vendo, no mesmo cinema em que todo mundo costuma ir. Quero ouvir a mesma música que todo mundo ouve, ou pelo menos saber que existe, caso não faça parte do meu gosto musical. Quero usar o estilo de roupa que todo mundo usa, cuidar do visual como todo mundo cuida. Quero fazer os mesmos passeios que todo mundo faz, comer o mesmo lanche de rua que todo mundo come, correr para pegar o ônibus como todo mundo faz e descer correndo a escada rolante para pegar o metrô que já está na plataforma, assim como todo mundo – ou como todo paulistano.

Assim como todo mundo, quero ser aceito do jeito que eu sou. Quero ter perto de mim pessoas para as quais não preciso disfarçar a voz, murchar a barriga, esconder a cicatriz do braço, mudar comportamento, mentir sobre minha posição social nem minha história. Quero pessoas que não me evitem por eu ter uma doença A ou B, por ter uma disfunção X, ou por não ter o tamanho e peso ideal. Assim como todo mundo, quero ter meu grupinho, minha “panelinha”, gente com quem eu possa ficar à vontade, com quem possa baixar a guarda, sem medo de julgamentos e comparações. 

Assim como todo mundo, quero que lembrem de mim. Que meu nome seja citado quando organizarem algo, que se eu não estiver presente me liguem pra avisar “vamos sair, vem com a gente?”, e mesmo se eu declinar insista com um “faz uma forcinha pra vir, vai ser legal”. Quero que minha companhia seja desejada por alguém. Quero que pensem “ele vai gostar disso” quando virem algo qualquer por aí. Quero que digam “ nossa, lembrei de você ontem”, ou “vi uma coisa que é a sua cara”. 

Assim como todo mundo, quero me sentir parte de algo. Me envolver em alguma ação. Ter um compromisso além do trabalho. Algo para me dedicar nas “horas vagas”. Algo mais sério que um hobbie. Quero ser útil em alguma coisa, e ser indispensável em algum lugar, sem o compromisso do cartão de ponto da empresa. Quero que me falem “você fez falta ontem” quando não puder ir. 

Assim como todo mundo, quero alguém para amar. Quero alguém com quem conversar coisas que não converso com o amigo, comentar sobre o cliente bizarro que atendi no trabalho, alguém que fique quando todos os outros se vão. Alguém que faça parte dos meus planos quando penso no meu futuro. Alguém para quem dar o kit de maquiagem que ganhei acidentalmente na promoção da loja, assim como o aconselhado pela atendente: “leva pra namorada”. 

Assim como todo mundo, quero ver as coisas de um jeito mais simples. Encarar a vida sem o peso que muitas vezes nos auto impomos. Quero não ter tantas regras de convivência, e assim ser mais livre para improvisar, marcar coisas fora de hora, experimentar o que nunca me havia permitido. Quero ter a leveza de viver que nos permite ir onde nunca pensaria em ir, falar sobre o que nunca falaria, conviver com quem eu não conviveria. 

Isso é carência? Se sim, assumo que, igual a todo mundo, sou carente. Talvez porque carência seja exatamente isso: essa necessidade inerente ao ser humano de ser igual a todo mundo. 

Diferente? Pra que? Eu quero mesmo é ser igual.