Onde Está Deus?




Algumas vezes as pessoas me perguntam se eu acredito em deus. Respondo que sim, acredito, mas depende: de qual deus estamos falando? 

Não creio no deus de porte europeu de barba e cabelos brancos longos, sentado num trono grande e branco, rodeado de anjos tocando harpa que o bajulam dia e noite. Não creio no deus "controlador de voo", que sabe o que se passa em cada parte do mundo, e está atento a cada passo até mesmo da mais imperceptível das pessoas. Não creio no deus poderoso, vingativo, que mata e fere para justificar os que se dizem seus fieis. Não creio no deus rígido, que lança em algum inferno quem não obedece suas regras, por vezes ridículas. Muito menos acredito que ele esteja num paraíso perfeito, num ceu com ruas de ouro e cristal, cheio de jardins bonitos e pássaros que cantam. 

Creio sim em deus. Mas creio em deus como a motivação que me faz sair da cama todos os dias de manhã e enfrentar o trânsito caótico de uma grande cidade para um dia de trabalho cansativo. Para mim deus é a sensação boa que sinto quando ouço uma música que gosto, quando leio o melhor livro da minha vida, ou quando assisto uma boa peça de teatro. Deus é o bem estar causado por um bom banho depois de um dia cansativo. Deus é a risada descontrolada da mesa de bar do happy hour com os amigos. É o ambiente aconchegante da casa dos avós. Deus é o “parabéns” emocionado que você recebe de seus pais ao conquistar uma vaga na faculdade ou um novo emprego. É a sensação de realização causada pela vitória da equipe da qual você participa. É ouvir “papai” pela primeira vez. É o êxtase que se sente após uma apresentação bem sucedida. É conseguir finalmente, algo com que você sonhava tanto. 

E onde ele está? Deus está no olhar de um apaixonado ao encontrar sua amada. No sorriso sincero e alegre de uma criança ao receber um presente. Deus está no abraço de amigos que não se viam há muito tempo. Deus está na música cantada ao redor do fogo pelos amigos que curtem um fim de semana prolongado. Na alegria do meu cachorro ao me ver chegar em casa. Está no rosto da pessoa desconhecida, de quem não conheço sequer o nome, mas sei que é muito mais do que aquilo que vejo. Deus está no pão que sacia a fome do morador de rua, depois de horas sem algo para comer. Está no copo de água que refresca o calor do que trabalha o dia inteiro sob o sol. Está na cadeira em que se senta a pessoa que passou o dia em pé. Está no silêncio confortante de quem passa consegue escapar de um ambiente com barulho ensurdecedor.

Se quiser encontrar deus não olhe para cima, muito menos feche os olhos. Olhe pra frente. Mire. Olhe nos olhos dos outros. Deus é gente. 

Deus é o que te faz bem. 

Catarina (E No Desvario Seu)

O texto abaixo é uma montagem minha de um monólogo inspirado no poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, que virou cena no espetáculo Da Placenta Ao Túmulo, apresentado em dezembro pela Cia de Segunda, equipe de teatro da qual faço parte. O texto segue o roteiro de uma cena teatral, com todas as orientações de atuação necessárias. Caso queria usar só me avise, por favor! 

Formato do palco: flexível.

 ***
(em tom de desespero

Catarina! Catarina! 

Luzes se apagam. Sai de cena e volta com as duas garrafas iluminadas. 

Catarina, você está aí? Cadê você, Catarina? Alguém viu a Catarina? 

(Sai olhando no rosto de um por um dos presentes, iluminando com a garrafa. Escolhe uma pessoa da plateia para ser a “Catarina”). 

(Falando com a pessoa da plateia escolhida) Catarina, é você? Deixa ver. Hmm, não, você não é a Catarina.  

(Senta-se no meio do palco e começa a conversar com a plateia. Ar inocente, como criança). É que a Catarina vem me buscar hoje, sabia? Ela vem, ela me disse que vinha. Você deve estar se perguntando “mas como ele sabe disso?”. É que eu falo com ela todo dia. Mesmo ela estando na lua a gente conversa todo dia. É, ela tá na lua. Na lua. 

(Pausa. Brinca com a garrafa. Chama a atenção de uma pessoa da plateia

A Catarina adorava a lua. Toda noite a gente reservava pelo menos alguns minutos pra olhar a lua. A Isabela também adorava ver a lua. Ela era desse tamanho assim, ó. Parecia uma flor. Pausa. Brinca com a garrafa. 

(Chama a atenção de outra pessoa da plateia) Ei, você! Você gosta de flores? As pessoas parecem flores, finalmente. A Catarina sempre dizia isso. 

(Nova pausa. Agora perde o ar inocente de antes e adota um tom sério, reflexivo)

A Catarina ia levar a Isabela na escola, como ela fazia todo dia, mas estava chovendo muito e ela tinha acordado atrasada. Só que eu também estava atrasado pro trabalho. Meu chefe já tinha me ligado perguntando a que horas eu ia chegar. (Simula um telefone com uma das garrafas) “Ei, você está atrasado, vou descontar do seu salário, e a reunião marcada? Você não vem?”. Aquilo foi me irritando, me irritando, pensei que eu ia enlouquecer e no meio disso tudo a Catarina me aparece e diz “amor, me dá uma carona?”. (Pausa, como se estivesse muito irritado). “Não Catarina, não posso te dar carona”. (Olha para as garrafas e grita como se estivesse gritando com uma pessoa) “Quer saber? Vai a pé, Catarina! Se vira! Eu já tenho problemas demais, dá seus pulos e se vira pra levar essa menina pra escola”. Ela saiu chorando e levou a Isabela pra escola à pé. Aí no caminho elas iam, e vinha vindo o caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão.(Faz ruído de batida. Mostra os cinco dedos da mão para a plateia.) O motorista do caminhão, a velha que estava no ponto de ônibus, o rapaz na bicicleta, a Isa e a Catarina. Cinco mortos. 

(Nova pausa)

Sabe o que é curioso sobre a vida? É que algumas coisas a gente pode evitar, outras não. Eu não poderia evitar que a velha estivesse no ponto naquele momento. Eu não poderia evitar que o rapaz estivesse passando de bicicleta naquele momento. Eu também não poderia evitar que o caminhão perdesse freio naquele lugar. Mas eu poderia ter evitado que a Catarina e a Isabela estivessem ali naquela hora. Foram cinco, mas poderia terem sido só três, se eu tivesse dado carona pra elas. Foi minha culpa. Elas ainda estariam vivas. E eu não estaria aqui. A gente estaria em casa, agora. A Isabela estaria correndo e brincando. A Catarina estaria lendo poesia. 

(Suspira) Foi minha culpa. 

 (Pausa

(Como se tivesse tomado um susto) Ah, mas o que importa é que a Catarina vem me buscar hoje. Ela falou que vai me levar pra lua, com ela. Mas antes eu tenho que tomar todos os remédios de uma vez, tudinho de uma vez. E eles tão aqui. Vou tomar tudo. (Toma os remédios). Aí a Catarina vem me buscar, e nós vamos ficar juntos pra sempre. A Catarina... A Isa... Eu... 

(Faz que passa mal e cai no chão. Morte passa e leva o louco e as garrafas.)