Catarina (E No Desvario Seu)

O texto abaixo é uma montagem minha de um monólogo inspirado no poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, que virou cena no espetáculo Da Placenta Ao Túmulo, apresentado em dezembro pela Cia de Segunda, equipe de teatro da qual faço parte. O texto segue o roteiro de uma cena teatral, com todas as orientações de atuação necessárias. Caso queria usar só me avise, por favor! 

Formato do palco: flexível.

 ***
(em tom de desespero

Catarina! Catarina! 

Luzes se apagam. Sai de cena e volta com as duas garrafas iluminadas. 

Catarina, você está aí? Cadê você, Catarina? Alguém viu a Catarina? 

(Sai olhando no rosto de um por um dos presentes, iluminando com a garrafa. Escolhe uma pessoa da plateia para ser a “Catarina”). 

(Falando com a pessoa da plateia escolhida) Catarina, é você? Deixa ver. Hmm, não, você não é a Catarina.  

(Senta-se no meio do palco e começa a conversar com a plateia. Ar inocente, como criança). É que a Catarina vem me buscar hoje, sabia? Ela vem, ela me disse que vinha. Você deve estar se perguntando “mas como ele sabe disso?”. É que eu falo com ela todo dia. Mesmo ela estando na lua a gente conversa todo dia. É, ela tá na lua. Na lua. 

(Pausa. Brinca com a garrafa. Chama a atenção de uma pessoa da plateia

A Catarina adorava a lua. Toda noite a gente reservava pelo menos alguns minutos pra olhar a lua. A Isabela também adorava ver a lua. Ela era desse tamanho assim, ó. Parecia uma flor. Pausa. Brinca com a garrafa. 

(Chama a atenção de outra pessoa da plateia) Ei, você! Você gosta de flores? As pessoas parecem flores, finalmente. A Catarina sempre dizia isso. 

(Nova pausa. Agora perde o ar inocente de antes e adota um tom sério, reflexivo)

A Catarina ia levar a Isabela na escola, como ela fazia todo dia, mas estava chovendo muito e ela tinha acordado atrasada. Só que eu também estava atrasado pro trabalho. Meu chefe já tinha me ligado perguntando a que horas eu ia chegar. (Simula um telefone com uma das garrafas) “Ei, você está atrasado, vou descontar do seu salário, e a reunião marcada? Você não vem?”. Aquilo foi me irritando, me irritando, pensei que eu ia enlouquecer e no meio disso tudo a Catarina me aparece e diz “amor, me dá uma carona?”. (Pausa, como se estivesse muito irritado). “Não Catarina, não posso te dar carona”. (Olha para as garrafas e grita como se estivesse gritando com uma pessoa) “Quer saber? Vai a pé, Catarina! Se vira! Eu já tenho problemas demais, dá seus pulos e se vira pra levar essa menina pra escola”. Ela saiu chorando e levou a Isabela pra escola à pé. Aí no caminho elas iam, e vinha vindo o caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão.(Faz ruído de batida. Mostra os cinco dedos da mão para a plateia.) O motorista do caminhão, a velha que estava no ponto de ônibus, o rapaz na bicicleta, a Isa e a Catarina. Cinco mortos. 

(Nova pausa)

Sabe o que é curioso sobre a vida? É que algumas coisas a gente pode evitar, outras não. Eu não poderia evitar que a velha estivesse no ponto naquele momento. Eu não poderia evitar que o rapaz estivesse passando de bicicleta naquele momento. Eu também não poderia evitar que o caminhão perdesse freio naquele lugar. Mas eu poderia ter evitado que a Catarina e a Isabela estivessem ali naquela hora. Foram cinco, mas poderia terem sido só três, se eu tivesse dado carona pra elas. Foi minha culpa. Elas ainda estariam vivas. E eu não estaria aqui. A gente estaria em casa, agora. A Isabela estaria correndo e brincando. A Catarina estaria lendo poesia. 

(Suspira) Foi minha culpa. 

 (Pausa

(Como se tivesse tomado um susto) Ah, mas o que importa é que a Catarina vem me buscar hoje. Ela falou que vai me levar pra lua, com ela. Mas antes eu tenho que tomar todos os remédios de uma vez, tudinho de uma vez. E eles tão aqui. Vou tomar tudo. (Toma os remédios). Aí a Catarina vem me buscar, e nós vamos ficar juntos pra sempre. A Catarina... A Isa... Eu... 

(Faz que passa mal e cai no chão. Morte passa e leva o louco e as garrafas.)

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