Prefiro morrer do que perder a vida


A frase parece boba e sem qualquer sentido, ainda mais quando lembramos que foi dita por uma personagem de um programa que não tem a pretensão de fazer nada além de apenas divertir, mas quando pensamos que foi escrita por um filósofo que usou o humor para mostrar ao mundo seu pensamento, vemos que faz, sim, muito sentido. 

Até porque, se pararmos pra pensar, existe diferença entre morrer e perder a vida. Morrer é encerrar um ciclo de existência, que alguns dizem que se encerra por completo, outros dizem que continua em outra dimensão, seja no ceu ou onde quer que seja. O que todos concordamos é que a morte põe fim a uma etapa da existência, independente do que se tenha feito durante o tempo de vida. Morrer é interromper carreira, separar família, deixar vago algum cargo, encerrar projeto. Morrer é o "fim". Ao morrer, tudo que esteja relacionado ao falecido se encerra. Nada mais a se acrescentar. 

Perder a vida é algo mais profundo. Podemos sim perder a vida sem morrer. Alguns existem, mas perderam a vida. Perder a vida é viver à margem da vida. É existir, mas não usufruir do que a vida tem para nos oferecer de bom. É sobreviver, apenas. Perdemos a vida quando deixamos passar oportunidades importantes em nome da preguiça ou do medo do novo. Perdemos a vida quando não aproveitamos as amizades, os bons momentos. Perdemos a vida quando, em nome de projetos passageiros, abrimos mão da convivência com a família, com as pessoas que amamos. Perdemos a vida quando deixamos de aproveitá-la, quando deixamos de praticar o "carpe diem".

Perder a vida é deixar de acreditar, é abrir mão da esperança de uma existência melhor, de um mundo mais leve e menos tumultuado. Perder a vida é achar que tudo já está perdido, que nada tem jeito e que as coisas "são assim mesmo". Perder a vida é fazer de hino as palavras da música da Pitty, que diz: "a minha alma nem me lembro mais em que esquina se perdeu". Jesus de Nazaré falou sobre perder a vida, mas com uma expressão parecida: "de que adianta ao homem ganhar o mundo e perder a alma?" Algumas pessoas vivem, outras apenas existem. 

Roberto Goméz Bolaños existiu por um bom tempo - 86 anos - e mais do que existiu: viveu. Viveu para criar, para dar corpo à sua forma de ver o mundo. Viveu, aproveitou a vida e deu vida à sua vida, através de suas personagens, que são várias além do Chavo Del Ocho, cada uma com sua particularidade e característica. Claro, o mais conhecido é o Chavinho, o "burro à pão de ló", e por aí vai. Roberto conseguiu criar uma personagem que, como disse Clarice Lispector, viveu "apesar de". Apesar da pobreza, apesar da falta de uma família, apesar da falta de uma casa, o Chaves vive. É feliz, tem amigos que ama (quem nunca chorou com a carta que ele escreve ao Seu Madruga no dia de São Valentim?) e brinca mesmo sem brinquedos. Talvez o Chaves seja tão querido assim porque todos somos um pouco Chaves: lutamos para viver apesar de. Queremos mais que existir. Lutamos diariamente para não perder a vida. 

Roberto, descanse em paz. Obrigado por nos ensinar a viver. E lembraremos sempre de uma de suas lições: podem me vencer uma vez, mas não irão me vencer duas. Ou três, ou duas mil, trezentos e cinquenta e sete. 

Alis Grave Nil.