Mandy & Andy


Desde há muito tempo Dan era acompanhado em seu dia a dia por Mandy e Andy, dois seres que só eram vistos por ele mesmo. Não lembrava direito como e quando eles haviam aparecido em sua vida, mas eram parte do seu dia a dia. Onde quer que fosse, lá estavam Mandy e Andy, um de cada lado. Ambos eram redondos e pequenos, e sempre se posicionavam sobre os ombros de Dan. Lembravam os antigos Tamagotchis, tão exorcizados pelos religiosos e amados pelas crianças na época. Mandy era branca como a nuvem e ficava do lado direito. Meiga, voz de criança inocente e de sorriso cativante, Mandy simbolizava o que havia de melhor em Dan. Já Andy era da cor das trevas e ficava do lado esquerdo. Tinha voz  rouca e usava muitas, muitas gírias. Andy representava o lado ruim de Dan, ou como o próprio Andy dizia, "a realidade da vida de Dan". Ninguém os via, os ouvia, nem imaginava sua existência. E Dan também preferia não contar, já que não tinha interesse em ser considerado louco pelos amigos. Não sabia bem o que eram: anjos, fadas, duendes, enfim, não fazia diferença. Sabia que era adulto o suficiente para brincar com a imaginação e inventar amiguinhos imaginários. Por isso tentava não levar a sério os dois seres que já haviam se tornado uma espécie de amigos. Sim, era uma loucura! Mas uma coisa era certa: Mandy e Andy existiam. E conversavam com ele. 

Mandy era a voz que o aconselhava, o motivava, o levava para frente. Mandy via o que havia de melhor em Dan e trabalhava isso com ele, o fazendo enxergar as possibilidades da vida. Para Mandy, Dan era um cara legal, interessante que tinha todas as chances de se dar muito bem na vida. Dan sabia se expressar bem, era educado e gentil com as pessoas, se relacionava bem com pessoas das mais diferentes culturas, desde os crentes da Deus é Amor aos Hippies cheios de dreads. Dan era daquelas pessoas que "todo mundo gosta", ou pelo menos ninguém tem o que reclamar. Não tomava partido de briga nenhuma, e sempre tentava levantar o moral dos amigos. Era o conselheiro da turma, a cabeça sensata dos amigos. Quando alguém precisava desabafar, era só procurar o Dan. Ele sempre tinha algo de bom para dizer, ou pelo menos era um ótimo ouvinte. Dan era uma boa pessoa, e merecia muito sucesso na vida.

Mas Andy via as coisas de outra forma. Para Andy, Dan não passava de um fracassado, um cara bobo que vivia sozinho por não ser interessante à ninguém. Exatamente por essa mania de querer ser legal com todo mundo era visto pelas pessoas como um mané que vive sorrindo e concordando com tudo. Dan era o motivo das risadinhas de corredor. Não interessava se Dan tinha uma boa formação, se era inteligente e culto, se era gentil com as pessoas, bom amigo e blá blá blá. Dan era um cara sem graça. Ponto final. Até podia ser alguém suportável para se conviver no dia a dia, já que o próprio Andy reconhecia que Dan não era o tipo que insiste muito em uma coisa a ponto de se tornar irritante, mas Dan era entediante e sem graça. E como todo cara sem graça, o destino de Dan era morrer sozinho rodeado de gatos miando e sujando a casa. "Olha só, bicho, fim de semana e você sozinho em casa dando banho em cachorro, cara! Todo mundo se divertindo e você aí assistindo vídeozinho do Porta dos Fundos no Youtube. Reconheça, malandro: você é um solitário idiota que ninguém quer por perto". 

Dan sabia que eram duas formas diferentes de ver a si mesmo, e sabia que o melhor a fazer era acreditar em Mandy e seguir em frente mas, por mais que tentasse fazer diferente, Dan pendia sempre a acreditar no que Andy dizia. Era verdade. Quantas vezes havia convidado pessoas para sair, para fazer algo legal e sempre ouvia as desculpas mais esfarrapadas? "Vou comprar ração para o cachorro / vou no mercado / vou na minha vó", e etc. As pessoas sempre tinham um motivo para rejeitar um convite de Dan. E Dan sabia o motivo: as coisas que ele gostava de fazer não eram interessantes a mais ninguém além dele mesmo. Ainda no tempo em que namorava se lembrava de ouvir conversinhas da namorada com os amigos, dizendo que iria fazer "programa de índio" com ele. Andy tinha razão: Dan era entediante. Ele não entendia de futebol, bebidas nem vídeo game, o que era motivo o suficiente para fazê-lo ser excluído de 99% das conversas. O que sobrava para se conversar com Dan? Nada além de conversas corriqueiras, dessas que se tem com o ascensorista no elevador ou com o porteiro da empresa. As pessoas não viam motivo para manter amizades mais sólidas com Dan. Ele não tinha nada legal a oferecer. Não conhecia ninguém influente que pudesse oferecer um final de semana legal em algum lugar divertido. Aliás, não sabia fazer nada divertido. E pra completar Dan sequer bebia. O que uma pessoa que não bebe espera da vida? Nada mais que a solidão, já que o álcool é o grande responsável por unir pessoas. Ninguém sentia vontade de estar perto de Dan.

E cada vez que Dan conversava com Andy e concordavam em suas conclusões pessimistas Mandy se entristecia, e percebia que já não tinha o que fazer ali. Dan havia acreditado piamente em tudo que Andy falava. Mandy repetia, repetia, mas não era ouvida. E resolveu ir embora. Chorou quando abandonou sua posição ao lado direito de Dan e saiu pela janela, para enfim procurar outra pessoa interessada em ver a vida de uma forma mais bela e menos depressiva. Mas ia sentir falta de Dan. Sabia que era um desperdício um cara com tantas qualidades se afundar em conclusões tão escuras como as que Andy lhe falava. Caso um dia Dan quisesse, Mandy voltaria.

Mas só se Dan quisesse.