Rodolfo quer tentar


Sim, Rodolfo passou a manhã ensaiando em frente ao espelho o que diria para Talita. Pensou, repensou, ensaiou caras e bocas, entonação de voz, postura corporal, filmou-se ensaiando seu discurso para ver o que tinha de melhorar. Mas sabia que tudo aqui seria em vão. Quando chegasse o momento Rodolfo seria mais uma vez surpreendido pela sua timidez e pela genética falta de habilidade masculina com as palavras do coração. Por isso resolveu escrever. Precisaria transmitir toda sua emoção em palavras. Mas antes de começar a escrever, sabia que teria de responder uma pergunta simples:

Por que a Talita?

Sim, Talita não era a única garota com quem Rodolfo tinha contato. Tinha amizades, e amizades bastante bacanas com outras garotas lindas. Desfrutava do privilégio de ter acesso fácil a meninas cobiçadas por todos. Sabia que alguns caras dariam de tudo para ter a amizade - e outras coisas mais - de algumas das amigas de Rodolfo. Mas ele escolheu Talita, a mais discreta, a que quase ninguém conhecia, a de poucas palavras. Por que ela?

Primeiro por motivos clássicos: ela era inteligente, falava bem, se expressava muito bem, além de ser linda. Talita não era mais uma como a maioria, que sequer sabe em que mundo vive e se deixa levar pela maré. Era uma menina culta, com formação acadêmica, mas sabia conciliar sua inteligência com uma simpatia que a fazia atraente. Além do mais, ela conhecia Persépolis, o livro preferido de Rodolfo, o que por si só a fazia diferente da maioria. Mas ainda assim esses eram motivos, apesar de bons, muito vagos para se interessar por alguém. Por que, então, havia se interessado por Talita?

Nem ele sabia. Só sabia que ela lhe inspirava bons sentimentos. Quando olhava para ela ou quando pensava nela se sentia alguém bom, alguém parte de um mundo onde as coisas valem a pena. Rodolfo não estava apaixonado. Tinha a convicção de que, como Renato Russo dizia, se a paixão fosse realmente um bálsamo o mundo não pareceria tão equivocado. E ele nem tinha mais idade para se apaixonar. Não era mais um adolescente que morre de amores e perde o apetite por conta de uma outra adolescente alvo de uma paixão doentia. O que Rodolfo sentia por Talita era maior, mais simples e mais leve que paixão. Mas ele não sabia dizer o que. Só sabia que era bom. Mas Rodolfo sabia que, a essa altura, teria de responder outra pergunta:

E o que ele queria com Talita?

Apenas tentar. Sem a obrigação de dar certo, Rodolfo queria tentar. Fazer parte do infinito particular  de Talita, desse mundo misterioso que chamamos "vida pessoal". Queria conhecê-la além do período de poucas horas diárias. Queria saber do que ela gosta e do que não gosta, aprender suas músicas preferidas, saber para qual time torcia (e desejar muito que não fosse são-paulina!). Queria saber se ela gosta de café, se prefere leite, se gosta de pão francês, como reage ao frio. Queria saber quais as manias dela. Queria poder ligar para ela antes de dormir para desejar boa noite, e lhe mandar SMS de manhã com um bom dia. Queria comentar com ela os livros que lia, os filmes que via, as notícias que acessava. Queria ligar para ela quando soubesse de algum show bacana e não muito caro que acontecesse na região, pra marcarem de ir e após o show tomarem milk-shake no Bob's (mesmo ele odiando tudo que venha do Bob's). Queria ter alguém para contar as coisas boas que aconteciam no trabalho e desabafar as coisas que o incomodavam. E queria ouvi-la. Ouvi-la reclamar da mãe que pega no pé, da irmã chata, do primo que faz brincadeiras bestas. Ajudar, se fosse possível, mas principalmente ouvir. Ser o par de ouvidos que toda mulher sonha ter, sem recriminar, apenas ouvir. 

Queria uma chance. Uma que fosse, mas uma boa chance de conhece-la melhor. Se não desse certo, pelo menos havia tentado e conhecido uma pessoa bacana. Se desse certo seria a pessoa mais feliz do mundo por ter ao seu lado alguém.

Rodolfo só queria uma chance, só queria tentar.