República Imbecilizada



Estava aqui pensando com meus botões sobre a força da mídia em criar assuntos. Não, não sou desses chatos que vivem de falar da "manipulação da mídia", ou da "imprensa golpista" como o babaca dao Paulo Henrique Amorim vive papagaiando por aí. Mas é inegável a força da mídia em criar assuntos e desviar o foco de outros. E quando o assunto é desviar o foco os programas de entretenimento tem papel fundamental.

Não é de hoje que a mídia tem a força de tirar o foco do que realmente importa. Na Ditadura Militar os programas de entretenimento tiveram um papel importantíssimo para que o Regime tivesse apoio popular. Flávio Cavalcanti, o eterno apresentador de TV, passava dias a elogiar os generais da ditadura, exaltando-os como "guardiões da família" e outras baboseiras. Sílvio Santos, apesar de nunca apoiar abertamente, foi peça-chave para desviar o foco das atrocidades cometidas pelos generais. Com seus programas dominicais onde vivia a distribuir presentinhos e se apresentar como o grande amigo dos mais pobres ele acabava por levar o brasileiro a não prestar atenção no que acontecia do lado de fora da porta de casa. Dizem as más-línguas que a concessão da TVS, hoje SBT, ao Sílvio Santos foi um presente dos militares a Sílvio Santos pelos "serviços" prestados ao Governo. E a Globo, então? Segundo o que se consta o tal "Padrão Globo de Qualidade" surgiu exatamente para mostrar aos brasileiros uma imagem irreal do país: novelas ambientadas em mansões habitadas por gente bem sucedida e feliz, para levar ao brasileiro a mensagem de que tudo estava muito bem, obrigado. Sim, todas essas emissoras sofreram com a censura do Regime, mas eles mais ajudaram que atrapalharam o Governo.

Hoje talvez a TV e a mídia não sirva tanto para apoiar atrocidades, mas serve para criar notícias fúteis e trata-las com uma importância indevida. Qualquer porcaria vira notícia. Qualquer zero-à-esquerda vira celebridade. Se um guri desafinado grava um vídeo berrando coisas sem sentido enquanto a irma ri descontroladamente e a mãe exibe uma pancinha desorientada logo os três viram celebridades, dessas que povoam os programas dominicais na TV. Ou uma menina até então comum vira celebridade porque o pai diz num comercial que ela "está no Canadá". Aliás, programa dominical na TV virou até divã. Artistas fazem cara de suspense para contar ao Brasil inteiro que foram abusadas na infância...

Para onde estamos caminhando? Não, não sou contra o entretenimento. Eu também ri da família de estúpidos gritando "para nossa alegria" e também fiz piadas sobre a Luiza estar no Canadá. Mas tudo tem limites. Uma coisa é rirmos de um meme da internet. Outra é isso virar notícia e a TV explorar isso ao máximo, tudo em nome de uma audiência sofrida. Ao invés de nos divertirmos estamos nos imbecilizando. Quanto mais estudamos, quanto mais os brasileiros ingressam na faculdade mais idiotas nos tornamos. O Brasil, o país que diz estar enriquecendo, está virando uma república de idiotas. Não questionamos mais nada. Desde que tenha futebol e bunda rebolando o resto é resto. Sim, eu gosto de futebol e não ligo se vez por outra uma bunda rebola na TV. Mas repito: tudo tem limites. Estamos nos tornando seres impensantes, irracionais. E nem falo da questão de brasileiro ser ligado em futebol, porque o europeu também é, mas lá se sabe moderar a paixão pelo futebol com a crítica. Aqui idolatramos um garoto que joga - muito - bem e o tratamos como celebridade. Ligo o jornal de manhã e ouço a âncora do jornal anunciando como notícia do dia que jogador tal gravou o clipe de "Tchu Tchá". Que país é esse?

Que tipo de "país desenvolvido" estamos nos tornando?

God Bless America

Cena do filme God Bless America. Penso o mesmo sobre Faustão, Pânico, Raul Gil, Ana Hickman, Rodrigo Faro, Eliana, Celso Portioli, CQC e qualquer outro tipo de programa de "entretenimento" da TV.


Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Ah, como me sinto meio "Ismália", as vezes. Essa confusão entre ser "normal" e "louco". Aliás, o que é ser louco?