Porque deixei de ser evangélico

Nasci no meio de evangélicos. Sou de uma família onde ser membro da Assembleia de Deus é quase condição para ser bem aceito. Fui apresentado na igreja quando tinha pouco mais de uma semana. Aliás, até meu nome revela meu nascimento "gospel": é um clara referência ao fundador do metodismo, John Wesley. Cresci na igreja, frequentei escola dominical, participei da classe "Amiguinhos de Jesus" e lá cantava músicas como "cuidado olhinho no que vê, o Salvador do Ceu está olhando pra você". Quando criança fui ensinado que deveria evitar amizades com pessoas que não fossem evangélicas, pois elas carregam as "trevas" consigo. Fui proibido terminantemente de praticar qualquer tipo de esporte, pois são coisas "do demônio". Mas eu gostava da vida que levava. Não conhecia nenhum outro jeito de se viver.

Quando adolescente continuei frequentando a igreja, agora já com os resultados da escola dominical mais presentes no meu dia a dia: o medo. Cresci ouvindo falar de um deus punidor e vingativo, que lança no fogo do inferno todos aqueles que o desobedecem, seja com coisas grandes, seja com detalhes. "Não existe pecadinho ou pecadão", diziam meus pastores. Para que eu tivesse uma vida "tranquila" e não precisasse me preocupar com o inferno havia uma série de regras e mandamentos que eu deveria seguir, sem deixar passar uma vírgula sequer, sob pena de ser considerado "filho do diabo". Ah, o diabo. Quanta força ele tinha na minha vida. Aprendi que onde quer que eu fosse havia uma legião de demônios esperando apenas um deslize meu para tomar conta da minha vida e fazer de mim a pessoa mais desgraçada do mundo. Mesmo que esse deslize fosse apenas olhar a bunda de uma garota. Isso para um adolescente de 14, 15 anos, com a sexualidade à flor da pele, era um martírio. Fui proibido de namorar, de ter qualquer contato mais próximo com uma garota, qualquer tipo de cumprimento além de "paz do senhor, irmã". Se possível, deveria evitar pegar na mão dela. Isso era uma forma de "evitar a tentação". Todo mundo sabe que para um pré-adolescente cheio de hormônios um simples toque na mão macia e bem cuidada de uma menina bem vestida pode significar quase o mesmo que uma noite de sexo. Lembro muito bem de quando eu estudava a oitava série e uma moça da igreja que estudava na mesma sala que eu se aproximava de mim com claras segundas intenções. Eu, um garoto no meio da puberdade, desejava a menina. Claro, eu estava me tornando homem e uma menina da minha idade, bonita e cheia de desejo tentava se aproximar de mim. Mas eu a repeli. O medo do demônio era mais forte. Mais até do que a puberdade. Tinha muito, muito medo de um dia saber que Deus estava entristecido comigo. Mas, mais do que isso, eu tinha muito medo do diabo. Esse medo me perseguiu a adolescência inteira.

Até que um dia o medo do diabo teve seu ápice: meu pai, por motivos que prefiro não dizer aqui, resolveu ir à igreja. Me sentei ao lado dele no culto daquele dia. Durante o culto notei uma movimentação estranha dele. Começou a olhar para todos os lados. Estava inquieto. Esfregava as mãos e começou a suar frio. Eu perguntei se ele estava bem, e ele não respondeu. De repente ele solta um grito no meio do templo e cai no chão, se contorcendo como se estivesse tendo uma convulsão. Aquilo foi interpretado pelos pastores da igreja como uma possessão demoníaca, e em segundos vários homens se amontoaram em volta dele, tentando "expulsar" o demônio que estava se apossando de meu pai. Hoje eu sei que ele teve uma crise convulsiva causada pela epilepsia alcoólica. Mas como a igreja dizia que "epilepsia era o nome que a ciência dava para tentar disfarçar a ação do diabo" (aliás, a igreja acreditava que a ciência era algo do diabo) eu acreditei que meu pai realmente havia sido tomado por um espírito diabólico. Aquela cena me perseguiu dias. Meses. Anos. O medo de passar pelo que meu pai passou me tornou um neurótico. Eu tinha medo do diabo. Tinha medo de pronunciar o nome dele. Tinha medo de fazer qualquer coisa que desse uma "brecha" para que o diabo agisse na minha vida e eu acabasse igual meu pai, contorcido no meio do templo. Desde aquele dia nunca mais sentei no mesmo lugar na igreja. O medo se intensificou.

Mas mesmo adolescente e cheio de medo várias perguntas me surgiam, mas eu não as permitia sequer se concretizarem, pois fui ensinado que "quem questiona abre brechas para o diabo", pois "deus não é deus de confusão". Só que eu cresci. Comecei a fazer minha faculdade, conheci pessoas diferentes de mim, e que tinham os mesmos questionamentos meus. Vi pela primeira vez uma pessoa próxima de mim falecer, uma pessoa que preenchia todos os requisitos de "bom cristão". E me perguntava: por que deus permite que pessoas boas morram assim de repente? E pela primeira vez me permiti duvidar. E quando permiti que a primeira dúvida ganhasse vida, uma enxurrada de outras dúvidas vieram: se deus controla todas as coisas por que há tanta injustiça no mundo? Se deus é amor por que tanta gente morre de fome? Que deus amoroso é esse que permite pessoas morrerem em guerras civis intermináveis na África? Qual a evidência de que deus teria criado o mundo? Se o que a bíblia diz sobre o início do mundo é verdade onde se encaixam os dinossauros na história? Como pode um mundo inteiro ter sido criado em 6 dias? O que deus tem a ver com a vida pessoal de gente comum para implicar tanto com sua sexualidade - ou homossexualidade? Essas são algumas das perguntas que povoavam minha cabeça dia após dia.

O medo do diabo foi aos poucos se extinguindo, à medida em que eu passei a conhecer mais sobre a epilepsia, e que eu descobri que ela é uma doença. Conheci um amigo que sofria de epilepsia e que era tão gente boa que eu sabia que era impossível que ele tivesse algum demônio. Agora isso me parece até absurdo, mas na época eram conclusões que faziam a diferença na minha vida.

Os cultos que eu frequentava passaram a ser uma farsa para mim. Estava lá, mas sabia que não era o que eu queria. Não conseguia acreditar nos "testemunhos" de pessoas que diziam terem sido curadas por deus após fazerem cirurgias (ora, se fez a cirurgia é óbvio que ela vai sarar). Não conseguia mais acreditar em nada do que eu via. Ir aos cultos era um tormento para mim, pois eu sabia que seria mais duas horas de conversas fiadas de gente hipócrita que talvez tivesse as mesmas dúvidas que eu, mas que preferia reprimi-las e viver uma religiosidade meia-boca. Tocava na banda, cantava no conjunto de jovens, no coral, lia a Bíblia, mas tudo isso apenas para manter a aparência. Eu sabia que muita coisa do que está na Bíblia era mal interpretado ali. Eu via claramente que os "conjuntos de louvor" eram formas que pessoas inescrupulosas encontravam para tentar iniciar brigas intermináveis por lideranças insignificantes. Gente que brigava pelo majestoso cargo de tesoureiro da mocidade. Cansei de ver brigas entre pessoas que queriam o privilégio de tocar a bateria da igreja. Mulheres se digladiavam pelo direito de ter a chave da cantina. Homens brigavam para sentar no altar da igreja. Eu assistia àquilo tudo e pensava: que diabo é esse que me perseguia durante a adolescência para ver se eu ia olhar a bunda de alguma menina mas não vê esse povo todo brigando?

Então resolvi sair. Mesmo sob os protestos da minha mãe que me ameaçava com coias do tipo "deus pode pesar a mão por você sair do seu lugar" e com supostas profecias que diziam que eu iria "pagar o preço" eu saí. Não suportava mais assistir um culto sequer. Liguei para meu pastor e comuniquei que a partir daquela semana eu não iria mais à igreja.

Sofri por isso. Sofri rejeição dentro de casa. Amigos viraram as costas. Gente que me considerava "um jovem de deus" passaram a me ignorar. Pessoas atravessavam a rua para não me cumprimentar. Quando era inevitável o contato, não diziam nada além de "oi". Pessoas que me viram crescer me tratavam como "desviado", "perdido". Alguns tentavam me "re-converter". Descobri um lado da igreja que eu não conhecia. Um lado nefasto. Quem entra não tem o direito de sair. Se sai é tratado como lixo. Eu fui tratado como lixo (algumas vezes nas reuniões de família, inclusive). Bom mesmo é só quem está dentro da igreja. Me decepcionei com a igreja.

Nesse meio conheci a Igreja Betesda, que parecia ser diferente. Lembro do primeiro culto que eu assisti lá, onde foi falado que "o problema dos evangélicos é tratar as pessoas debaixo do medo, impedindo que elas tenham dúvidas". Aquele pastor resumiu minha adolescência em uma frase. No meio de mais de 2 mil pessoas ele parecia falar diretamente comigo. Foi Deus que o usou? Acho que não, pois com certeza eu não era o único decepcionado ali.

Passei a conhecer melhor a Igreja Betesda, e descobri que deveria ficar lá. A cada culto percebia como ela está a anos-luz do movimento evangélico brasileiro. A ponto de o pastor Ricardo Gondim, pastor da Betesda, ser hostilizado pelos evangélicos. Ele é tratado como herege, como pessoa perigosa por dizer o que pensa. E eu pensei: bom, o sistema evangélico é um sistema falido, nefasto, que não merece o menor crédito. E se esses evangélicos criticam um pastor é porque ele é diferente. Se é diferente deles ele deve ter algo de bom para falar. E realmente tem. A Igreja Betesda sabe dialogar com outras formas de pensamento, inclusive com o ateísmo. Vê o que há de bom em outras religiões e trás para si. A ponto de promover o lançamento do novo livro de Rubem Alves. Aquele Rubem Alves que é tratado como "diabólico" pelos evangélicos. A Betesda não cobra dízimo, nem controla quanto cada membro entrega em dinheiro por mês. O que se pede lá são contribuições voluntárias para a manutenção da igreja, mas sem promessas de cura nem nada disso. Ninguém ganha nada ao ofertar na Betesda, além do prazer de contribuir para a própria igreja. Bem diferente do sistema evangélico que cobra dízimos - e trízimos - prometendo grandes realizações em troca. O próprio pastor Ricardo Gondim diz não se considerar evangélico, tendo em vista que a igreja evangélica no Brasil virou um mercado onde se vende facilidades na vida terrestre em troca de gordas contribuições financeiras e uma vida de submissão às ordens de pastores inescrupulosos e corruptos.

A caminhada ainda não é fácil. Vez por outra ouço comentários de pessoas que ainda não aceitam meu rompimento sem volta com a Assembleia de Deus. Desde que saí nunca mais coloquei os pés num culto evangélico. E não pretendo colocar mais. Ao invés de ouvir uma música gospel prefiro ouvir Lenine. Ao invés de assistir um culto do Silas Malafaia prefiro ver um show de rock. Prefiro ler qualquer romance do que ler um livro do RR Soares. Não tenho paciência para a falação interminável dos tele-evangelistas. Não sei quem é o cantor gospel da vez, nem qual a música que andam cantando nas igrejas. Desisti de acompanhar a vida de pessoas consideradas "exemplo de fé". Não me interessam mais as convenções ministeriais de Madureira, no RJ, nem o que é falado no Belenzinho, em SP. Não interessa mais saber quem é quem no mundo gospel. Se algo tem o título de evangélico eu passo adiante. Rompi de vez.

A melhor coisa que já fiz na vida até hoje foi ter abandonado o movimento evangélico.

Antes do clássico Timão X Tricolor



Raramente escrevo sobre futebol aqui (na verdade com esse texto inauguro a tag "futebol" no blog), porque acho que ele não deve ter a importância que tem na vida das pessoas. É, nasci no país errado... rs Mas domingo é dia de clássico paulista. E que clássico! Corinthians e São Paulo se enfrentam no Paca às 17h. Antes de meio mundo sair se mutilando nas estações de metrô, pontos de ônibus e ruas de SP, vale a pena lembrar de algumas coisas:

O São Paulo é hoje um dos maiores times brasileiros e no mundo. Possui 3 libertadores, 1 mundial de clubes e vários títulos paulistas. É a 3° marca mais valiosa do Brasil e figura em todas as listas de futebol como, senão o mais importante, um dos mais importantes. É uma agremiação esportiva a se respeitar. Seu estádio próprio, o Morumbi, guarda histórias de grandes clássicos, além de ter sido palco de outros grandes não esportivos. o São Paulo tem hoje estrelas como Rogério Ceni, o maior goleiro artilheiro do mundo e foi a casa de grandes nomes, como Telê Santana e Muricy Ramalho. O SPFC é um time para se respeitar.

O Corinthians não tem nenhuma libertadores, nenhuma grande estrela com um peso considerável de marketing (tem o Adriano, mas o peso dele é outro, agora...) e só agora veio construir seu estádio próprio, em Itaquera, mas com certeza tem a torcida mais apaixonada do Brasil. São quase 30 milhões de corinthianos declarados, o que faz com que o time tenha hoje a maior torcida do estado de São Paulo e a segunda maior torcida do Brasil. Foi um dos primeiros times brasileiros a aceitar atletas negros, isso ainda na época da fundação, por volta de 1910. Foi o time onde o craque Ronaldo encerrou a carreira como jogador. Foi campeão brasileiro em 2011, além de vários outros títulos estaduais e regionais. O Corinthians é hoje a marca mais valiosa do Brasil, de acordo com a BDO RCS, valendo mais de R$ 860 milhões. Enfim, o Corinthians é um time para ser respeitado.

Ou seja, ambos os times tem glórias e vantagens para contar. São dois grandes times, com grandes craques e um futebol bonito de se ver. Então, como eu disse lá no começo, antes de sair mutilando o adversário, espancando gente inocente em metrô, ônibus e etc com pedrada e paulada lembre que o jogador do seu time poderá estar no time adversário amanhã. A rivalidade do campo fica apenas no campo. E é assim que deve ser. Isso porque futebol é um esporte, e não uma "briga de mulas", como diria o sábio Seu Madruga. Vá, assista, torça, grite e, mais importante, respeite o adversário.

E, só pra concluir, meu desejo para o domingo é: PRA CIMA DOS BAMBIS, TIMÃO! (Eu não sou de ferro, né? rs).

Show Me the Place



Ele esteve no auge, caiu por causa do álcool e da depressão, se isolou num mosteiro budista, saiu de lá e, depois de descobrir que estava totalmente curado da depressão, viu que havia perdido tudo, depois de sofrer um golpe da então namorada que havia ficado responsável por administrar os bens. Agora, aos 77 anos, trabalha mais do que nunca.

Sim, estou falando de Leonard Cohen, uma das melhores vozes de um estilo americano bastante peculiar. Dono de uma voz grave e potente, ele precisou voltar ao batente e produzir mais músicas, para repor as perdas financeiras do golpe que sofreu. E, apesar da situação desagradável, os fãs agradecem por ter Leonard de volta. E com músicas inéditas. O novo álbum Old Ideas é a prova de que, se as amarguras que sofreu doeram em Leonard Cohen, elas serviram para inspirá-lo a fazer o que ele sabe de melhor: belíssimas músicas. Músicas como Show Me the Place mostram bem isso: "mostre-me o lugar / onde o sofrimento começou / as confusões vieram / e eu salvei o que pude". É impossível não se identificar, em algum momento, com as letras dele.

Veja Show Me the Place:

"Meu iá iá, meu iô iô"



Nunca prestei muita atenção nas músicas do Wando. Sou de uma geração posterior ao auge da carreira dele como cantor. Além disso, minha infância evangélica me impedia de ouvir qualquer coisa que "não fosse de deus". Mas não é porque eu nasci depois do auge ou porque não curto o estilo de música dele que vou ignorar a força e a influência dele na música popular brasileira. Na música e na forma como as pessoas se relacionam com seus cantores preferidos. Prova - bem bizarra, diga-se de passagem - disso são as calcinhas que as fãs jogavam para ele nos palcos onde cantava.

Wando tem uma participação importantíssima na história da nossa música. Marcou a juventude de mulheres que viviam numa época em que o machismo era sinal de masculinidade. Em meio a homens truculentos, Wando era o sujeito carinhoso. Enquanto muitos maridos tratavam suas mulheres como seres inferiores, que não serviam para nada mais além de limpar casa e dar de mamar aos filhos, Wando as tratava como seres superiores, quase como deusas. Wando era o ídolo, o modelo de homem perfeito para essas mulheres. Conseguiu criar uma identificação quase amorosa suas fãs. Não é à toa que elas lhe jogavam calcinhas. Quer prova maior de intimidade do que isso? Mesmo sem nunca ter falado com ele, elas se sentiam íntimas, talvez porque suas músicas retratavam tudo o que elas sonhavam ouvir dos maridos, que preferiam tomar cerveja nos botecos acompanhados de outros homens.

Musicalmente, Wando não tinha vergonha de ser brega. Aliás, a linha tênue entre "romântico" e "brega" ficava ainda mais indefinida na voz dele. Fez parte de uma geração em que o exagero era bem visto. Vendeu muitos, muitos discos. Ganhou platina, ouro, e todos os tipos de prêmio que se possa imaginar. Influenciou outros cantores. Mostrou que ser romântico não deixa nenhum homem menos macho. Pelo contrário.

E hoje Wando se foi, vítima de complicações cardíacas. Mas as suas músicas influenciaram e vão continuar influenciando. Mulheres em todo o Brasil vão se lembrar sempre do momento em que, mesmo à distância, eram tratadas como "luz, raio estrela e luar". Cantores vão continuar buscando nele uma referência. Wando agora faz parte da história da música. 

Wando agora é uma referência musical. Goste você dele ou não.

Digitando enquanto anda

Eu faço isso todos os dias pelas ruas de SP, seja enviando SMS, seja usando a internet. Pra quem também costuma digitar no celular enquanto anda vale a pena ver o vídeo feito por Casey Neistat, criador da série The Brothers Neistat. Casey criou um guia rápido de sobrevivência e etiqueta para aquelas pessoas que não conseguem tirar os olhos de seus celulares nem quando estão andando pela rua.

O vídeo foi publicado originalmente no site do jornal The New York Times para ilustrar uma matéria do próprio Neistat que tratava sobre o assunto. Em um tempo em que ninguém consegue afastar os olhos das pequenas telas de seus celulares, o guia de sobrevivência é mais do que necessário: é essencial.

Veja: