Elsa & Fred - Um Amor de Paixão



Acabei de assistir na TV Cultura o filme Elsa & Fred, do diretor espanhol Marco Carnevalle, filmado na Espanha e Itália.

O filme conta a história de Elsa e Alfredo, dois velhos viúvos (ou talvez...) que são vizinhos em um prédio e, depois de um incidente, eles acabam se conhecendo e começam a se identificar, mas não por terem algo em comum: o que os une é exatamente o fato de serem totalmente diferentes: Elsa é uma velha de 77 anos, alegre e irreverente, que num primeiro momento pode ser vista até como mentirosa e irresponsável, por gastar o dinheiro do filho mais velho para sustentar o trabalho do mais novo. Já Fred é o tipo do homem que levou uma vida certinha: aos 78 anos tem horários para tudo, toma todos os remédios receitados pelo médico mesmo sem ter necessidade de tomá-los, dormindo e acordando no horário. Depois de um tempo de relacionamento, os dois acabam se apaixonando e vivem momentos inesquecíveis, alguns deles sobre a influência do filme A Doce Vida, de Fellini; tudo isso mesmo sob a reprovação dos filhos de ambos, que acham que eles estão velhos demais para querer algo novo na vida.



O filme faz o estilo "bonitinho", cheio do romantismo próprio do cinema espanhol. Eu não o conhecia, mas me chamou a atenção o fato de os protagonistas serem atores idosos - eu gosto muito de ver idosos atuando em filmes, novelas e etc, ou melhor, eu gosto muito de ter contato com pessoas velhas, dessas bem idosas, cheias de histórias de vida pra contar, talvez porque eu não seja tão próximo dos meus avós. Mas, mais do que isso, o filme mostra o amor na terceira idade e nos faz entender que nunca é tarde demais para se aproveitar a vida. Escolher viver ou morrer é algo pessoal, e a idade é o que menos conta nesse sentido. Elza e Fred é a história de um casal que resolveu viver e realizar sonhos, mesmo com a idade avançada. Ainda mais porque Elza tinha pouco tempo de vida.

Vale a pena ver!

Pra quem gosta de fado...

Katia Guerreiro, fadista


Talvez eu esteja entre os pouquíssimos brasileiros que gosta da cultura portuguesa, principalmente da música. E falar em música portuguesa sem falar no fado é impossível, já que esse é o maior e mais admirado estilo musical português. A força do fado entre os portugas é tão grande que o estilo está para ser indicado como um dos Patrimônios Imateriais da Humanidade. 

No vídeo abaixo a fadista Kátia Guerreiro fala sobre a importância do fado, da visão que os estrangeiros tem do estilo musical e da importância da indicação ao modo como as pessoas - inclusive os próprio portugueses - veem o fado, já que alguns ainda o veem apenas como uma simples música triste.

Veja o vídeo:


Ceu

Um homem, seu cavalo e seu cão caminhavam por uma estrada. Quando passaram perto de uma árvore gigantesca um raio caiu e todos morreram fulminados. Mas o homem não percebeu que já havia deixado esse mundo, e continuou caminhando com seus dois animais.

A caminhada era muito longa, morro acima, o sol era forte. Eles estavam suados e com muita sede. NUma curva do caminho encontraram um portão magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calçada de blocos de ouro, no centro da qual havia uma fote onde jorrava água cristalina. O caminhante dirigiu-se ao homem que guardava a entrada.

- Bom dia.
- Bom dia, respondeu o guarda.
- Que lugar é este, tão lindo?
- Aqui é o ceu.
- Que bom nós chegamos com muita sede.
- O senhor pode entrar e beber água à vontade, disse o guarda indicando a fonte.
- Meu cavalo e meu cachorro também tem sede.
- Lamento muito, disse o guarda, aqui não se permite a entrada de animais.

O homem ficou muito desapontado, porque a sede era grande, mas ele não beberia sozinho; agradeceu ao guarda e continuou adiante. Depois de muito caminharem morro acima, já exaustos, chegaram a um sítio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha que se abria para um caminho de terra, ladeada de árvores. À sombra de uma das árvores um homem estava deitado, cabeça coberta com um chapeu, possivelmente dormindo.

- Bom dia, disse o caminhante.
O homem acenou com a cabeça.
- Estamos com muita sede, eu, meu cavalo e meu cachorro.
-Há uma fonte naquelas pedras, disse indicando o lugar. Podem beber à vontade.

O homem, o cavalo e o cachorro foram até a fonte e mataram a sede. O caminhante voltou para agradecer.

- Voltem quando quiserem, disse o homem.
- Por sinal, como se chama esse lugar?
- Ceu.
- Ceu? Mas aquele guarda do portão de mármore disse que lá era o ceu.
- Aquilo não é o ceu, aquilo é o inferno.

O caminhante ficou perplexo.
- Vocês devia proibir que eles usem o nome de vocês. Essa informação falsa deve causar grandes confusões!
- De forma alguma; na verdade eles nos fazem um grande favor. Porque lá ficam todos que são capazes de abandonar seus amigos.

A Última Ceia



Há uma lenda que diz que, ao pintar A Última Ceia, Leonardo Da Vinci se deparou com uma grande dificuldade: precisava pintar o Bem - na imagem de Jesus - e o Mal - na figura de Judas, o amigo que resolve traí-lo na hora do jantar. Interrompeu o trabalho no meio, até que conseguisse encontrar os modelos ideais.

Certo dia, enquanto assistia um coral, viu em um dos rapazes a imagem perfeita de Cristo. Convidou-o para seu ateliê, e e reproduziu seus traços em estudos e esboços.

Passaram-se três anos. A Última Ceia estava quase pronta - mas Da Vinci ainda não havia encontrado o modelo ideal de Judas. O cardeal, responsável pela igreja, começou a pressioná-lo exigindo que terminasse logo o mural.

Depois de muitos dias procurando, o pintor encontrou um jovem prematuramente envelhecido, esfarrapado, bêbado, atirado na sarjeta. Con dificuldade pediu a seus assistentes que o levassem até a igreja, pois já não tinha mais tempo de fazer esboços.

O mendigo foi carregado até lá, sem entender direito o que estava acontecendo: os assistentes o mantinham de pé, enquanto Da Vinci copiava as linhas da impiedade, do pecado, do egoísmo, tão bem delineadas naquela face.

Quando terminou, o mendigo - já um pouco refeito de sua bebedeira - abriu os olhos e notou a pintura à sua frente. E disse, numa mistura de surpresa e espanto:

- Eu já vi esse quadro antes.
- Quando? Perguntou surpreso Da Vinci?
- Há três anos atrás, antes de eu perder tudo o que tinha. Numa época em que eu cantava num coro, tinha uma vida cheia de sonhos e o artista me convidou para posar como modelo para a face de Jesus.


O Bem e o Mal tem a mesma face. Depende apenas da época em que cruza nosso caminho.

(Paulo Coelho - O Demônio e a Srta. Prym)

Tempo que Foge

Descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicentemente, mas percebendo que faltavam poucas, passou a roer o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e se perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, para “tirar fatos a limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Gosto, e ponto final! Lembrei-me de Mário de Andrade, que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar explicando se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia de Chico Buarque e de Vinicius de Moraes; a voz de Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, de Thomas Mann, de Ernest Hemingway e de José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

Ricardo Gondim (apesar de muitos atribuírem o texto a Rubem Alves, Carlos Drummond de Andrade e outros, o texto é de Ricardo Gondim e faz parte do livro "Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas").