Oração de Candace

Deus: pede o que quiser, e lhe será feito.

Candace: Deus, não quero nada de muito difícil. É tão simples que envolve apenas meus fins de semana. Só queria um grupo de amigos para ir no barzinho jogar conversa fora às sextas, um namorado que me levasse ao cinema no sábado a noite e uma família que me acompanhasse aos domingos de manhã à igreja. Pedi muito?

Deus: por que você não faz como os outros, que pedem carro, casa, cura? Isso que você pediu pode ser difícil demais, até pra mim.

Candace: desculpe! Então eu peço um pouco de dinheiro pra pagar a prestação do carro.

Deus: assim seja!

A Ostra e o Vento


Assisti hoje na TV Cultura A Ostra e o Vento (1998), filme de Walter Lima Jr, baseado no livro de mesmo nome de Moacir, e que marcou o inicio da atriz Leandra Leal no cinema, que ainda tinha 13 anos. Os (poucos...) que me conhecem sabem que sou um grande fã de todos os trabalhos da Leandra Leal. Na minha opinião, ela é uma daquelas que, independente do papel que interprete, sempre o fará muito bem. Por isso gosto desse filme, por marcar a estreia do talento dela no cinema.

O filme conta a história de Marcela (Leandra Leal), filha do faroleiro José (Lima Duarte) que cresce isolada do mundo na ilha e sob os cuidados excessivos do pai controlador e ciumento. O único contato que a menina tem com o mundo é o velho Daniel (Fernando Torres), o ajudante do pai, o jovem louco Roberto (Floriano Peixoto) e um barco que vez por outra vai até a ilha levar suprimentos para os habitantes. A menina aprende a ler com o velho Daniel e torna-se sua amiga. Mas a menina cresce e, junto com sua adolescência, chega a primeira menstruação, que lhe trás, mesmo sem que ninguém lhe ensine, o prazer do desejo sexual. Mas como mora sozinha na ilha sem ninguém para compartilhar o que sente a menina acaba por fazer amizade com o vento, a quem ela chama de Saulo. O vento tem participação importante no filme: a menina sente como se Saulo fosse um namorado que todas as noites a visita e a toma em seus braços, lhe trazendo mais do que alegria: ela sente o prazer do sexo com o vento.

A mensagem do filme é muito interessante: as consequências que uma vida isolada e cheia de proibições podem trazer a uma pessoa. Marcela é uma menina reprimida pelo pai, assim como fora sua mãe (Débora Bloch, que faz só uma pequena participação no filme, nos flashbacks do pai José) que acabou assassinada pelo marido. Marcela é uma menina que cresce sem conhecer pessoas diferentes, e mesmo os poucos conhecidos eram proibidos de terem acesso a menina, por causa do pai ciumento.

Um filme denso, forte. Vale muito a pena ser visto.

Eu, político?

Os poucos que acompanham o que escrevo nos blogs onde colaboro já devem ter percebido que eu gosto de SP. Não digo que amo porque essa cidade não dá muitos motivos para ser amada, tanto por causa de algumas pessoas que aqui vivem como por causa de alguns políticos que dispensam comentários. Mas gosto de SP, acho essa cidade um lugar incrível, onde as pessoas conseguem criar coisas fantásticas em meio ao caos, onde a gente se impressiona ao ver uma mísera árvore no meio do asfalto, onde um dos mais agradáveis parques da cidade, o Parque Trianon, está localizado exatamente no meio da avenida mais "acimentada" de SP, a Avenida Paulista. SP é como o quarto da gente: uma "bagunça organizada", onde a gente se acostuma a viver e se achar no meio da confusão. Aprendemos a viver em meio ao trânsito, adaptamos nossos horários de acordo com a lotação dos ônibus, criamos estratégias pra não ser esmagados no metrô ou pra não ser jogados como saco de cimento na estação Luz da CPTM. Em SP nos acostumamos a fazer fila para tudo (até pra usar o banheiro) e formamos fila até quando não ha ninguém orientando a fazer isso. Nos acostumamos a não falar com pessoas na rua e a comer lanche em pé na calçada. São particularidades bem paulistanas como essas que me fascinam e me fazem gostar daqui.

É por isso que gosto de pensar soluções pra SP. Sempre procuro escrever sobre problemas de São Paulo, ver o que outras pessoas pensaram sobre a cidade, avaliar sugestões, ouvir o que as pessoas dizem na rua, enfim, pensar na cidade como alguém que quer achar soluções pra facilitar um pouco a vida por aqui. Gosto disso, e tenho muita vontade de ir em frente e tentar aplicar algumas dessas soluções.

Mas pra isso eu precisaria de uma instituição conhecida no Brasil inteiro pela sua podridão generalizada: a política. Fora da política, o máximo que posso fazer é sugerir e brigar, ou na pior das hipóteses, bater cabeça contra paredes que nunca vão cair. Dentro da política se tem a chance de realmente fazer algo mais do que pedir: a política dá o poder de mudar, de fato, alguma coisa (ou pelo menos te dá chances reais de tentar). Mas e aí, quem em sã consciência e mão no coração se filiaria a um partido político no Brasil?

É bem verdade que há muita gente boa na política. em todos os partidos há pessoas boas e ruins. Tem muita gente na política que merece nossa admiração. Gente como o deputado estadual Carlos Bezerra Jr, que usa a política pra combater a pedofilia no estado de São Paulo, ou como o vereador da capital Gilberto Natalini, que usa o mandato de vereador pra trabalhar pelo organizar eventos que recebem lixo eletrônico, pra evitar o descarte errado desse material, ou ainda o secretário de Cultura Andrea Matarazzo, um dos que mais admiro na política pelo trabalho sério e antenado com a realidade que vem fazendo no Estado, e pelo ótimo trabalho que fez quando secretário de subprefeituras de SP. Inclusive fiquei sabendo esses dias que ele pretende sair candidato à prefeitura de SP em 2012. É um bom nome.

Mas mesmo com tantos bons exemplos na política, a ideia de filiar-se a um partido é algo que assusta. Isso porque todos os partidos brasileiros tem um dono específico, que usa o partido de acordo com suas conveniências. A estrutura política brasileira está viciada, e não vejo a menor perspectiva de mudança. Nós, pobres mortais que estamos aqui fora, não sabemos metade do que se passa nas reuniões políticas internas, nas eleições de diretórios estaduais, nas comissões, nas brigas por cargos e títulos.

PT está fora de cogitação, tanto porque não consigo entender qual ideologia o PT atual segue. Simpatizo com a ideia da Social Democracia pelo mundo, mas no Brasil o que o PSDB faz não é social democracia nem em sonho. Botei confiança no PV, quando da eleição de 2010 em que a Marina Silva saiu candidata. Mas o PV se mostrou ser igual a todos os outros. O resto (PR, PP, PTB, PDT e tantos outros P's) é resto. Até no PSOL eu já pensei, mas a ideia de me tornar um socialista rabugento que vive de endeusar Karl Marx não combina comigo. Quem sobra?

Ainda simpatizo com o PPS. Gosto da postura do deputado Roberto Freire, principalmente quando o assunto é fazer oposição ao Governo, e gosto também da Soninha Francine e do jeito prático como ela lida com a política. O PPS carrega a história do "partidão", o PCB dos movimentos estudantis que combateu a Ditadura, lutou com todas as forças mesmo na clandestinidade e, depois de restabelecida a democracia no Brasil e com o mundo caminhando num mesmo rumo, soube reconhecer que o comunismo russo não combinava mais com o mundo globalizado, e se reinventou. Mudou de nome, deixou de ser o Partido Comunista para se tornar o Partido Popular Socialista. Concordo muito com a ideologia de socialismo do PPS - ou a que o site diz ser a oficial: um socialismo antenado com a realidade, pé no chão e ligado com  a economia mundial. Só nunca concordei com a posição submissa ao PSDB que o PPS vinha mantendo há alguns anos - na verdade o PPS vinha atuando como um segundo tucanato fora do PSDB - mas algumas declarações do dep. Roberto Freire me chamaram à atenção. Entre elas, a proposta de reposicionamento do PPS, pra passar a caminhar com as próprias pernas.

Ainda não sei o que eu faço, se me filio mesmo há algum partido político, se espero pra ver onde esse novo "movimento" da Marina Silva vai dar. O fato é que eu tenho muita vontade de poder colocar ideias em prática. Só me falta o meio certo de fazer isso.

Casa de Areia e Névoa


Hoje assisti pela segunda vez o filme Casa de Areia e Névoa, adaptado do livro de mesmo nome do autor inglês André Dubus III e que tem no elenco a linda da Jennifer Connely. Esse é um daqueles filmes que me deixam sem ar quando acabam, tamanho o impacto que ele causou em mim. Isso aconteceu da primeira vez que o vi, e aconteceu hoje de novo.

O filme conta a história da jovem Kate, que de uma hora pra outra vê sua vida virar do avesso por causa de um erro da prefeitura da cidade, que inclui sua casa entre a lista de empresários devedores. A casa vai a leilão é é comprada por uma família de iranianos que tenta se estabelecer no país. Aí começam as discussões entre Kate e os iranianos, já que nenhum dos dois resolve ceder.

Mas o filme vai muito além disso. Mostra o conflito cultural a que os americanos estão expostos sempre, e mostra tambem como os estrangeiros muitas vezes são vistos nos EUA. A casa é apenas um modelo do que são os EUA, além de expor a crise do sistema imobiliário americano, que ainda não estava tão grave quando o filme foi gravado. Mostra como a incompetência dos governos pode afetar diretamente e de maneira as vezes irreversível a vida de pessoas comuns, que não querem nada mais do que o direito à uma vida digna, sejam nativos ou estrangeiros.

O ambiente em que o filme é gravado, com toda a melancolia que a história exige, além do fato de a introspectividade das personagens ser exposta de uma forma tão brilhante faz com que o filme seja envolvente. É impossível - pelo menos pra mim - sair do sofá depois que se começa a assistir.

Casa de Areia e Névoa, desde a primeira vez que o vi - há quase dois anos - me marcou muito, e depois de revê-lo hoje me marcou mais ainda. É impossível olhar as relações entre pessoas da mesma forma depois de assistir o filme. Como bem disse o repórter da CNN quando o filme foi lançado, ele é "espantosamente poderoso"

Pra quem se interessar, eu indico, Vale muito a pena.

Para Sempre Lilya


Acabei de assistir Para Sempre Lilya, dirigido por Lukas Moodysson, na TV Cultura. Um filme denso, polêmico, com uma história marcante e uma mensagem surpreendente. É impossível assistir o filme e não pensar nele por dias. Pra explicar melhor o filme, recorri ao comentário do site Omelete sobre o filme.

Nas primeiras cenas acompanhamos uma jovem perturbada e com hematomas correndo por entre automóveis. Ela pára em cima de um viaduto com a nítida idaia de que irá se jogar. Acontece um corte e o filme volta três meses, e assim começamos a descobrir os motivos que levaram aquela moça a tamanho desespero. Ela é Lilya, uma jovem de 16 anos que mora num pobre e melancólico subúrbio em algum lugar da antiga União Soviética. Sua mãe se mudou para os Estados Unidos com o novo marido e Lilya espera que ela lhe mande dinheiro para viajar ao seu encontro. Quando não recebe nem cartas nem o dinheiro, fica claro que Lilya foi abandonada. Ela é obrigada a se mudar para um minúsculo apartamento sem luz ou aquecimento. Desiludida e sem dinheiro, a jovem se desespera. Seu único amigo é Volodya, um garoto de apenas 11 anos de idade que volta e meia dorme em seu sofá. Ela, então, conhece e se apaixona por Andrei, que a chama para começarem juntos uma nova vida na Suécia. Volodya desconfia que tudo acontece rápido demais, mas Lilya viaja mesmo assim.

Lukas posiciona a câmera de tal forma que sofremos todas as dificuldades ao lado da protagonista, mesmo não vendo as cenas. Tudo é feito implicitamente, mas de forma tão poderosa que comprova que a sugestão atinge mais que a imagem explicita. O sofrimento de Lilya é marcado por estupro, prostituição e violência. Oksana Akinshina no papel principal consegue uma interpretação digna de um Oscar. Artyom Bogucharsky também não fica muito atrás como Volodya.

A história relata que pais negligentes e instituições governamentais de auxílio ao menor são os verdadeiros responsáveis pela situação de Lilya e, claro, de milhares de outros jovens ao redor do mundo. O espectador tem a certeza que o mundo é cruel e que é habitado por homens e mulheres repugnantes. As crianças que existem são as vítimas dessa maldade. Não há momentos de redenção ou personagens ambivalentes.

Em certas cenas Lukas cria imagens de pura emoção. Em uma das seqüências mais belas vemos Lilya e Volodya retratados com asas de anjos num paraíso perpétuo. Com isso apresenta que a vida é o inferno e o paraíso é a liberdade.

O filme abre e fecha com "Mein Herz Brennt" (My Heart is Burning), uma canção poderosa da banda Rammstein. Com isso fica claro que dissonância em vez de harmonia é o tema predominante e que bonecas, lápis de cor e bichos de pelúcia não farão parte da vida dessas crianças. A música é utilizada como uma intensificadora dessa característica durante o filme.

Como sempre as produções de Lukas Moodysson são atreladas com algum tipo de mensagem. No caso de Para sempre Lilya é dedicado às crianças que são envolvidas no tráfico sexual escravo. Às vezes até parece um documentário pelo crescimento dessa prática na Suécia, já que a legislação de lá só considera ilegal comprar sexo e não vender. Jovens russas e dos países bálticos viajam para a Suécia com passaportes falsos e promessas de casamento e trabalho, mas acabam encontrando seus piores pesadelos. Percebemos essa ênfase no filme quando os clientes de Lilya são filmados esbaforidos e em close no momento do coito. Parece um espelho da forma como a prostituição é encarada na Suécia. Isso sem falar na forma como as mulheres sempre foram e ainda são tratadas na Suécia (vale a pena conhecer história de Lisbeth Salander em Os Homens que Não Amavam as Mulheres e os demais livros da trilogia Millenium, do escritor sueco Stieg Larson).

Há também uma denúncia de que a globalização nos levou a um apetite frenético por mercadorias e comodidades, enquanto milhões de pessoas são abandonadas a uma existência amarga, em que as crianças são as vítimas mais vulneráveis. Os valores norte-americanos continuam sendo as maiores influências no planeta. Nos poucos momentos de alegria de Lilya, ela sonha em morar na América, conta com orgulho que nasceu no mesmo dia que a cantora Britney Spears e sua felicidade reside em lanchar no McDonalds. É triste, mas infelizmente é a realidade atual

Pra Sempre Lilya me marcou, e com certeza vai ser um daqueles de que vou me lembrar por muito tempo, além de já ter entrado para minha lista de filmes preferidos. Eu, que tenho a mania de gostar do que ninguém conhece, nem me intimido mais em falar que gosto de filmes russos, suecos, bolivianos, iranianos, etc.

Assista o trailer: