Meu auto-exílio

Praça Central de Neves Paulista-SP, cidade onde estive


Olá, amigos.

Aos poucos que deram minha falta, estive uns dias fora de SP, uma semana pra ser mais exato. Fiquei na casa de meus avós no interior de SP para refrescar a cabeça e repensar um pouco minha vida.

Às vezes a gente precisa dar esse tempo longe de tudo, da vida corrida de São Paulo, da internet, e ver que existe vida inteligente fora disso tudo. Gente que sequer sabe o nome do Sistema Operacional da Microsoft, mas que vive bem, feliz e sabe se posicionar sobre os problemas do mundo. Eu precisava de uns dias assim.

E voltei pra Sampa. Agora com uma visão um pouco mais clara da minha vida e do que quero ser. consegui até formar uns planos pra mim. Vamos ver no que dá!

Domingo sem TV


Já vai pra um mês que comecei uma experiência que espero continuar por muito tempo: meus "domingos sem TV". Sim, um dia inteiro sem me deixar envolver com a TV e sua programação estúpida. A programação da TV é estúpida todos os dias da semana, na verdade, mas no domingo ela se supera. Programas de gosto duvidoso, "emburrecedores" (como diz o pr. Ricardo Gondim) sempre cheios de clichês e humor baseado na humilhação de certos grupos da sociedade. Prefiro mantera TV desligada.

E tem sido interessante! Tenho mais tempo para conversar com a família, para pensar, colocar o "tico e o teco" no lugar. Sim, às vezes ligo para ver o que irá passar no Fantástico, mas raras vezes as matérias são boas. Até um programa de conteúdo como o Fantástico se rendeu à burrice.

Quem quiser tentar a experiência, com certeza vai ter resultados positivos.

Hoje no ônibus

Hoje eu fui ao hospital pata tentar resolver um pequeno problema no pé que vem me tirando a paciência há um tempo. Vinha há dias reclamando e lamentando por causa desse problema nos pés. "Droga de vida", cheguei a dizer, certa vez.

No ônibus, entra uma mulher pedindo dinheiro. Pensei se tratar de mais um dos milhares que dizem estar morrendo de fome, mas querem na verdade dinheiro para a cachaça maldita. Mas eu sempre ouço essas pessoas falarem, para tentar descobrir se é só enganação ou não. E essa que entrou no ônibus hoje não estava enganando. Pele bem clara, cabelo encaracolado meio penteado, calça e casaco de moleton e chinelo havaianas, pedia uma ajuda para comprar medicamentos para seu filho que estava na UTI até não-sei-que-dia e vai voltar pra casa, mas precisa tomar remédios caros e não tem um centavo para comprá-los. Foi apenas o que consegui captar do discurso dela, longo e pausado. A mulher falava de olho fechados, parecia buscar coragem em qualquer canto do coração para falar ali dentro do ônibus. Depois de receber algumas moedas, ficou em pé chorando, enquanto esperava chegar ao próximo ponto e pedir novamente para outros. Depois que desceu do ônibus, a mulher caminhava pela rua chorando intensamente.

Não, eu não tinha um centavo para dar àquela mulher, mas nao consegui tirar os olhos dela. Enquanto ela chorava em pé, talvez pensando na imagem do filho internado dependendo de medicamentos que sabe-se lá se vão aparecer, eu chorei também. Talvez porque ando muito emotivo ultimamente (tenho chorado até com comercial de homenagem ao Dia das Mães), mas mais porque tentei me colocar um pouco na pele daquela mulher de quem não sei nem o nome, mas que sei: é mais um das muitas mães que sofrem por ver os filhos dependendo de remédios, mas não tem de onde tirar um real que seja. Tive vontade de chegar até ela, de sei lá, descer do ônibus e tentar iniciar um diálogo, mas o fato de eu não ter nenhuma nota no bolso para dar à ela (raramente ando com dinheiro) me fez hesitar. Queria ter lhe falado que independente de sua condição ela é um ser humano. Lhe falar que o filho com certeza um dia agradecerá o gesto humilhante da mãe de pedir dinheiro a desconhecidos. Lhe falar que Deus não virou as costas a ela. Muito pelo contrário, chora com ela e, de um jeito ou de outro, usará alguém para se compadecer dela. Queria ter chorado com ela. Mas não fiz nada isso. Não sei porque, se por covardia ou só pelo fato mesmo de não ter dinheiro para dar à ela, não fiz.

Depois que ela desceu, olhei para meu pé e senti vergonha da dimensão que vinha dando para um problema imbecil, enquanto aquela mulher buscava um meio de sobreviver e de garantir a vida do filho.

Enquanto escrevo isso, choro ao lembrar da cena da mulher em pé, com a cabeça apoiada na barra e ferro do ônibus. Isso ficou na minha cabeça. E provavelmente ficará por um bom tempo. Espero que pelo menos até o tempo suficiente de consolidar o que venho aprendendo sobre Deus e a Fé. Talvez aquela mulher fosse Deus pedindo um dinheiro (Hebreus 13:2 / São Mateus 25:42-43).

E agora só posso torcer para que alguémse compadeça daquela mulher, e lhe compre o medicamento.