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Ela Não Está Disponível

Há vários critérios, vários requisitos que nos levam a querer iniciar um relacionamento com alguém. Talvez o primeiro que algumas pessoas citem seja a afinidade (é questão de afinidade, Bial!), ou talvez a beleza física dela – apesar de saber que apenas beleza não segura relacionamento. Mas, mais do que isso, levamos em conta uma série de fatores, nem sempre de forma totalmente consciente, antes de assumir para nós mesmos que estamos realmente afim de alguém e quequeremos ter algo sério com ela: a forma como ela enxerga o mundo, como enfrenta problemas, como lida com a própria família, como trata os que tem situação financeira inferior, o que pensa do futuro, o que faz da vida, a forma como se arruma, como se veste,como vê as coisas pequenas da vida, como lida com as crianças, como se relaciona com as amigas e uma série de coisas que nem tem como citar aqui, de tão variadas que podem ser. Levamos tudo isso em conta antes de assumir: eu estou afim dela e quero – ou gostaria de – tentar…

Eu prometo

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Ainda não te conheço. Não sei onde você mora, com quem mora, não sei da sua vida, seus costumes. Não sei sua fisionomia. Se é loira, morena, ruiva, cor natural ou com tintura, alta ou baixinha, magrinha ou gordinha, se faz o tipo "gostosa" ou não, se tem dentes perfeitos ou se ainda usa aparelho. Se tem o cabelo liso ou encaracolado. Não sei se seus lábios são pequenos ou grandes, se seus olhos são castanhos ou verdes, se seu rosto é oval ou quadrado. Não sei se tem personalidade forte ou se é maleável. Se gosta de ter sempre a última palavra em tudo ou se está sempre aberta a outras opiniões. Não sei o que você gosta de fazer aos domingos à tarde, nem nos sábados à noite. Não sei se você gosta de café fraco, bife malpassado, Nutella ou pipoca de micro-ondas. Não sei se já tem quase trinta ou se é acabou de completar 18. Não sei quem são seus amigos, se você é tímida como eu ou expansiva, se é popular ou passa despercebida, se gosta de baladas ou prefere comer pizza em casa…

Catarina (E No Desvario Seu)

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O texto abaixo é o monólogo inspirado no poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, que escrevi para minha cena no espetáculo Da Placenta Ao Túmulo, apresentado em 2015 pela Cia de Segunda, equipe de teatro da qual fazia parte na época. O texto segue o roteiro de uma cena teatral, com todas as orientações de atuação necessárias. Caso queria usar só me avise, por favor! 
Formato do palco: flexível.

 ***
(em tom de desespero
- Catarina! Catarina! 
Luzes se apagam. Sai de cena e volta com as duas garrafas iluminadas. 
- Catarina, você está aí? Cadê você, Catarina? Alguém viu a Catarina? 
(Sai olhando no rosto de um por um dos presentes, iluminando com a garrafa. Escolhe uma pessoa da plateia para ser a “Catarina”). 
(Falando com a pessoa da plateia escolhida) - Catarina, é você? Deixa ver. Hmm, não, você não é a Catarina.  
(Senta-se no meio do palco e começa a conversar com a plateia. Ar inocente, como criança) - É que a Catarina vem me buscar hoje, sabia? Ela vem, ela me disse que vinh…

Silêncio também é música

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Imagine se numa orquestra todos tocassem o tempo inteiro juntos. Seria algo horrível de se ouvir! Já pensou trompetes com violoncelos, violinos com percussão, tubas e flautas, todos fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo? Arre, não quero nem imaginar. 
Sabe o que faz da música algo agradável e magnífico? Sabe o que faz Mozart ser tão apreciado? Chopin ser tão aclamado? Villa Lobos estudado e seguido por milhares de jovens sonhadores? Não, não são os acordes bem escritos e pensados harmonicamente; não são as escalas desenhadas perfeitamente para aquele ou esse instrumento; não são os intervalos de terça, de quinta, que fazem o jogo de notas serem mais do que bolinhas pretas e brancas numa partitura; não são as expressões italianas que parecem fazer mágica ao marcarem mudanças de andamento tão sensíveis à audição; não é a mudança de um “afetuoso” para um “agitato”, ou de um “cantabile” para um “scherzando”; não, não é a mudança de compasso nem a armadura da clave, nem os sustenidos e bem…

Igual a Todo Mundo

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As pessoas fazem de tudo para serem diferentes. Mudam visual, adotam um novo estilo, aderem à tribos. Até mesmo os mais “comuns”, os “normaizinhos” batem no peito para exaltar as características, mesmo que poucas, que os difere dos outros. Querem se destacar da multidão. Querem ser vistos com outros olhos, de um jeito especial. Alguns, na tentativa de se destacar dos demais, passam a vociferar palavras de ódio contra uma “sociedade morna”, que “faz tudo igual”. Atacam o “comportamento de boiada” e dizem que só os que são diferentes é que tem sucesso na vida. Querem por toda maneira serem reconhecidos por não serem iguais aos demais. 
Eu não. Eu quero mesmo é ser igual a todo mundo. 
Quero me sentar na mesma mesa de bar que todo mundo senta para beber a mesma cerveja que todo mundo bebe nas sextas-feiras à noite, como todo mundo faz. Quero rir das mesmas piadas sem graça que todo mundo ri. Quero comer os mesmos petiscos que todo mundo come. Quero ver o filme que todo mundo mundo está …

A vida não é igual a "Friends"

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Sim, é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que encontrar uma pessoa que ainda não tenha assistido a pelo menos um episódio de Friends. O longevo seriado americano criado por David Crane e Marta Kauffmann, que foi gravado entre 1994 e 2004, ainda hoje continua sendo o enlatado mais eficiente na função de prender a atenção de pessoas ao redor do mundo (o ocidental, pelo menos). Friends conta a história de um grupo de amigos – Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross - que passam, sempre juntos, por situações complicadas do cotidiano. Novo emprego, novo amor, novos sonhos, expectativas, dificuldades de relação coma família, tudo é vivido em conjunto pelos amigos, que trocam suas experiências e se ajudam – ou não – nas mais variadas situações. 
Talvez seja esse o segredo de Friends: mostrar a realidade de qualquer jovem, seja americano, brasileiro, inglês. Guardadas as devidas proporções, quem nunca passou pelas situações mostradas na cena? Todos nós temos nosso mo…

O Metrô

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17:00. Desliga o computador, aguarda o leve sinal sonoro do Windows avisando que o programa está definitivamente encerrado. Pega sua bolsa, guarda nela o livro que deixou o dia todo em cima da mesa e sai da sala, rumo à registradora eletrônica de ponto, para ali encerrar oficialmente mais um dia de trabalho. Cumprimenta alguns conhecidos que encontra por ali, jogando conversa fora enquanto esperam algo. Passa seu crachá, guarda-o na bolsa e sai dos domínios da empresa, rumo ao elevador que o levaria do 15° andar ao térreo, para a luz do sol. Corredor vazio. Ótimo, não tinha a intenção de conversar. Sua cota de assuntos triviais para quebrar gelo já se encerrara há algumas horas, e tudo o que queria naquele momento era o silêncio libertador do fim do dia, permitido apenas àqueles que sabem que o dia seguinte será religiosamente igual ao anterior, e assim sucessivamente, até que o próximo fim de semana venha com a carta de alforria que dá a falsa sensação de liberdade que a vida pessoa…

Prêmio de Consolação

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"Precisamos conversar", disse à namorada, que assistia Game of Thrones.
"Espera, é o último episódio da temporada", disse a moça sem olhar o rapaz que estava em pé perto da porta.
"Não dá mais. Não tem como continuarmos juntos", disse ele, em pé com os braços cruzados.
"O que?" - disse, desligando a TV.
E ele começou a falar:

"Quando começamos a namorar, eu sabia muito bem o motivo de você estar sozinha: você foi abandonada pelo noivo que resolveu te trocar pela sua amiga, e ainda fez questão de postar no Facebook que havia te trocado. Quando te conheci você era uma mulher magoada, tomada pela dor da traição. Eu me acheguei a você como um amigo, você lembra? Conversei com você, te aconselhei, por várias vezes enxuguei lágrimas suas enquanto dizia que você iria superar essa. Até que um dia, enquanto víamos um filme juntos no meu quarto, nos deixamos levar pelo momento e só demos conta do que havia acontecido na manha seguinte, quando acord…

O que é liberdade?

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Digamos que você está num programa de entrevistas, como o da Marília Gabriela, por exemplo, e ela lhe faça aquelas perguntas estilo “jogo rápido” antes dos comerciais, e uma das pergunta seja: “o que é liberdade?”. Você responde com um sorriso no rosto imaginando que a resposta seja fácil demais: “liberdade é fazer o que quiser, sem precisar dar satisfações a ninguém”. Ela sorri, gosta da resposta, e chama o intervalo comercial. 
Mas será que essa liberdade existe? 
Se você trabalha você deve satisfações ao seu coordenador, supervisor, etc. Se “fizer o que quiser” na empresa você simplesmente será convidado a integrar o time dos que recebem seguro-desemprego. 
Se você é casado você deve satisfações ao marido / esposa, se é que deseja ter um relacionamento saudável. Se “fizer o que quiser” ganhará um divórcio, as vezes litigioso e demorado. 
Se você é adolescente deve satisfações aos seus pais, que ainda respondem pelas bobagens que você fizer. Se “fizer o que quiser” pode perder a i…

O que é fazer terapia?

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Nós brasileiros não temos o hábito de construir sótãos em casa, mas a figura do sótão é bem interessante: o lugar entre o teto e a cobertura de telhas, destinado a tubulações, caixa d’água, instalações elétricas e outras estruturas necessárias para o funcionamento da casa. É geralmente um lugar de difícil acesso, escuro, sem ou com pouquíssima ventilação, isolado do convívio familiar, escondido de tudo e todos, para onde raramente vamos e nunca levamos ninguém (alguém convida o amigo para conhecer o sótão de casa, algo como “oi amiga, você vai adorar meu sótão”?).
O sótão quase sempre tem a função de “depósito” da casa, onde você guarda todo tipo de tralha e cacarecos: coisas que não vai usar mais, mas que não tem coragem de jogar fora, coisas que te trazem boas ou más lembranças, coisas que foram úteis um dia, coisas que pensa que ainda pode usar numa emergência, coisas para doação, mas que nunca são doadas de fato, coisas e mais coisas com as quais você não quer se encontrar diaria…

O Verdadeiro Reynaldo Gianecchini

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O texto abaixo é uma paródia de “O Verdadeiro George Clooney”, trecho do livro Em Algum Lugar do Paraíso, de Luiz Fernando Veríssimo. Sei lá, é bom avisar, né. Vai que alguém leva a sério…

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do Reynaldo Gianecchini o que está em jogo é a autoestima do homem brasileiro, os demais que não são Reynaldo Gianechinni. 
Qualquer qualidade que qualquer homem tenha, física ou intelectual, cai por terra quando comparado com Reynaldo Gianechinni. As mulheres não escondem sua adoração por Reynaldo Gianechinni. O próprio Reynaldo Gianechinni não faz nada para diminuir sua simpatia e dar espaço aos demais de sua espécie. Ele continua sendo cada vez mais Reynaldo Gianechinni. 
Quando anunciou-se que ele estava com câncer, lá no mais secreto do interior masculino houve uma expectativa pela sua morte, assim seria um homem perfeito a menos na disputa pela atenção das mulheres. E ele morreu? Nada, sarou e ainda agregou à si a imagem de homem batalha…

Sob o brilho da lua

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São mais de onze da noite, e a lua cheia insiste em roubar a visão de qualquer um que se aventure a olhar para cima. Da sacada da janela do quarto andar de um hotel barato e sem qualquer luxo Fernando olha a lua, que fica embaçada vista por detrás da fumaça do cigarro. No velho rádio Maysa enche o ambiente com Meu Mundo Caiu. O único ítem que adiciona algum glamour ao ambiente é o vinho do porto sobre a mesa de ferro ao lado da cama, onde também está a foto da esposa, a mesma a quem dedicara tanto amor e que agora não queria nem vê-lo. Já está hospedado ali há alguns dias, e pretende sair dali logo. Não sabe quando voltará para casa. Não sabe se voltará para casa. Sabia que a casa que fora sua, apesar de ainda a pertencer, não era mais seu lar. Não era mais bem vindo por lá. Fora enxotado do ninho que construíra com tanto carinho. Esqueceu-se por um momento da lua e passou a olhar a foto da esposa. Ela sorri, olhando para o lado, como se algo tivesse roubado a atenção dela logo no mo…