Deus





Me lembro da primeira imagem que fiz de Deus na vida. Era ainda bem criança, lá pelos 5 ou 6 anos, e na escola dominical da igreja que frequentava, a Irmã Genita, uma senhora de seus 60 anos que era professora das turmas infantis, nos apresentou Deus como um senhor sério, muito sábio, que observa a tudo, mas bondoso. Lembro muito bem de ela dizer "falem com Deus, ele adora ouvir o que vocês dizem, ele só não vai responder, mas ele adora ouvir a voz de vocês", e por causa disso eu orava todas as noites, pois sabia que ele gostava de me ouvir contar sobre a escola, sobre a lição de casa que eu tinha que fazer, e pedir desculpas por não ter entregue a lição completa de matemática - eu nunca levava. Eu tinha uma ideia bem definida de Deus e Jesus: Deus era um senhor de meia idade, talvez uns 50 anos, sério, de poucas palavras, que mais observava, mas bonzinho, e Jesus, que devia ser mais novo, talvez uns 30 anos, era o "gente boa", de sorriso fácil, que conversava sempre e adorava festa. Não muito alto e barba curta mas bem cuidada, Jesus era tipo um tio legal que leva o sobrinho pra tomar sorvete no domingo. Quando orava a noite, falava primeiro pra deus as coisas mais sérias do meu dia a dia - meu medo de algum colega de classe, minha tristeza por ver minha mãe cansada ao chegar do trabalho - e para Jesus eu falava as coisas divertidas, na certeza de que ele estava ouvindo e rindo comigo. Tinha ainda o Espírito Santo, pra completar a Santíssima Trindade, que eu nunca entendi muito bem quem era, mas sabia que existia, então quando orava não sabia muito bem o que dizer a ele e me sentia culpado por isso, pois conversava tanto com Deus e com Jesus, e para o Espírito Santo só sobravam as últimas palavras, quando o sono já era mais forte que eu. 

Aí veio a adolescência, e com ela a imagem de Deus foi distorcida. O Deus que eu via como um homem sério, mas bom, passou a ser um homem exigente, incontornável, controlador, que estava presente em todo o tempo, fiscalizando cada deslize, cada pensamento malicioso, cada desejo "impuro", pronto para dar ao Diabo licença total e irrestrita para agir em minha vida caso eu vacilasse, mesmo nas pequenas coisas, pois para deus "não existe pecadinho nem pecadão, é pecado do mesmo jeito". Diga isso para um adolescente de 13 anos que esta descobrindo a atração pelo sexo oposto e com os hormônios à flor da pele. O resultado é traumático. Traumática foi também a ideia que fiz de Deus nessa fase. Passei a ter o pior sentimento que se pode ter em relação a alguém: medo. Eu tinha medo de deus. Muito, muito medo. Eu via pessoas sendo expostas na igreja diariamente, tendo seus deslizes revelados na frente de todos, e morria de medo de ele expor ao público as olhadas que eu dava na bunda e no decote da professora Ana Paula - ela foi minha musa da adolescência. Ah, como eu tinha medo que ele me expusesse ao ridículo por eu sentir atração pela Andreia, menina da igreja que estudava comigo e com quem eu sempre fazia trabalhos, mais pelo desejo de estar perto e sentir o perfume dela do que pelo apoio que ela dava, uma vez que eu sempre fazia tudo sozinho. Esse medo irracional de Deus me acompanhou até a pós-adolescência e extrapolou para outras áreas da minha vida além da religiosa, mas isso não vem ao caso agora. Mas foi muito mais traumático que do que dá pra contar num post de blog. 

Com a fase adulta e agora com mais bagagem intelectual, a imagem do deus vingativo e punitivo do antigo testamento se foi, mas o deus bom da infância não voltou. Até tentam me vender a ideia de um Deus que ama sem restrições, que está pronto a apoiar a todos e sempre de mãos abertas a quem queira recomeçar, mas essa visão não cola mais pra mim. Na verdade, não é essa visão que não cola mais. É a ideia de Deus que se apagou. 

Não me declaro ateu, pois acredito que "há mais coisas entre o ceu e a terra do que supõe nossa vã filosofia", e não acredito que após a morte encontraremos apenas um "cruel e silencioso nada", como dizia Antônio Abujamra. Mas minha concepção do religioso está mais confusa do que eu gostaria que estivesse. Excluí Deus da minha vida. Não oro mais, não pauto minhas decisões na "vontade divina" nem o consulto para fazer nada. Vivo como um ateu, mas sem ser. 

Prefiro acreditar em Deus como a força que me faz levantar de manhã, que me faz sair da cama e tomar meu banho para trabalhar. Penso em Deus como a sensação boa que tenho ao ouvir a risada gostosa de uma criança, ou no amor que meu cachorro sente por mim. Penso em Deus como o calor do sol depois de vários dias frios, ou na brisa depois de muito tempo exposto ao calor intenso. Vejo Deus no semblante de satisfação de um mendigo ao comer algo que ofereci. Encontro Deus na satisfação pessoal que sinto ao entender algo que estava difícil. Sinto Deus quando canto uma música que gosto. Vejo Deus na risada da mesa de bar cheia de cerveja com amigos. Deus está no churrasco de domingo com pagode da família que não se reunia há tempos. Deus está no abraço de um pai e filho. Deus está no beijo do casal apaixonado que não se via há dias. 

Se Deus é tudo isso, não preciso orar a ele nem pedir que ele me acompanhe. Eu é que tenho que levá-lo para meu dia a dia, para minha rotina. Eu levo Deus quando troco a cara amarrada por um sorriso. Levo Deus quando cumprimento o porteiro do prédio, o motorista, o policial, o varredor de rua. Levo Deus quando espalho bondade, quando evito uma briga, ou quando dou uma palavra a quem sofre. Levo Deus quando agradeço o que me fazem. Levo Deus quando reivindico o que me é de direito. Levo Deus quando cumpro com minhas obrigações. 

Talvez essa seja uma visão mais adulta, mas muito parecida com a do Deus que a irmã Genita me ensinou aos 5 anos. E é essa visão que quero manter e passar adiante. 

Eu prometo





Ainda não te conheço. Não sei onde você mora, com quem mora, não sei da sua vida, seus costumes. Não sei sua fisionomia. Se é loira, morena, ruiva, cor natural ou com tintura, alta ou baixinha, magrinha ou gordinha, se faz o tipo "gostosa" ou não, se tem dentes perfeitos ou se ainda usa aparelho. Se tem o cabelo liso ou encaracolado. Não sei se seus lábios são pequenos ou grandes, se seus olhos são castanhos ou verdes, se seu rosto é oval ou quadrado. Não sei se tem personalidade forte ou se é maleável. Se gosta de ter sempre a última palavra em tudo ou se está sempre aberta a outras opiniões. Não sei o que você gosta de fazer aos domingos à tarde, nem nos sábados à noite. Não sei se você gosta de café fraco, bife malpassado, Coca Light. Não sei se já tem quase trinta ou se é adolescente. Não sei quem são seus amigos, se você é tímida como eu ou expansiva, se é popular ou passa despercebida, se gosta de baladas ou prefere comer pizza em casa. Não sei quem são seus pais, se são gente boa ou implicantes que pegam no pé da filha, não sei se tem irmãos ou irmãs, se já tem sobrinhos, quem são seus tios, tias, avós, primos. Não sei quais são seus costumes. Não sei se vem de família tradicional ou moderna, se a família é perfeita ou se tem brigas entre tios. Não sei quais são seus medos. Não sei o que te faz sentir receio, quais são seus limites físicos e psicológicos e o que te assusta. Não sei quais foram seus relacionamentos anteriores, se sofreu com eles, se amou muito, se foi enganada, se enganou, se chegou ao noivado, se jurou amor eterno, se usou aliança, se talvez foi até casada. 

Não, eu não sei nem quem é você. Talvez nem saiba se você existe, de fato. E você também não sabe quem eu sou. Pode ser que você também nem saiba que eu existo. Mas te prometo uma coisa: quando te conhecer e você me der a chance de te conhecer, vou te amar como nunca amei ninguém na vida.

Prometo ser a base da sua vida, para onde você sabe que pode recorrer sempre que precisar. Prometo ser o ombro quando você precisar desabafar sobre sua irmã que anda falando mal de você pra sua mãe, ou da colega do trabalho que quer te passar a perna. Prometo ser o seu "maior amigo, melhor amor". Prometo ser o braço que vai te sustentar e proteger de cair quando você tropeçar na rua. Prometo te dar um beijo sempre ao acordar e dizer que você está linda, mesmo se estiver despenteada e com os olhos sujos. Prometo deixar você mudar meu visual, simplesmente pra atacar de estilista e me usar como cobaia. Prometo não olhar a bunda nem o decote de outra mulher quando estiver com você (quando você não estiver por perto não garanto muita coisa...). Prometo te acompanhar na festa de aniversário da sua amiga, mesmo que me sinta um peixe fora d'água no meio de tanta gente desconhecida. Prometo esperar pacientemente quando você entrar só pra dar uma olhada no sapato da promoção da vitrine e demorar 45 minutos experimentando todos os modelos da loja. Prometo não sujar o tapete da sala de barro quando chegar todo sujo do futebol. Prometo não deixar a tampa do vaso aberta nem a toalha molhada em cima da mesa, e nem os sapatos espalhados pela casa. Prometo reparar quando você cortar as pontinhas do cabelo ou quando fizer as unhas na manicure. Pelo menos vou tentar... Prometo buscar o pão, dar banho no cachorro, abrir a porta do carro pra você sair e segurar sua mão na rua. Prometo te ligar na hora do almoço e mandar SMS durante o dia apenas pra dizer que te amo. Prometo acariciar seu cabelo e beijar seu rosto carinhosamente, quando você se deitar sobre meu ombro pra ver a novela. Prometo não reclamar quando sua amiga chata vier te visitar. Prometo não falar mal da sua mãe. Não na sua frente. 

Na verdade, esqueça tudo isso. Não vou prometer nada. Tanto porque certas coisas eu nao vou conseguir cumprir, mesmo. Vou prometer apenas uma coisa: te amar do jeito que você é, com sua personalidade e sua "bagagem". Cumprindo essa promessa,todo o resto vai acontecer como consequência.

Se você quiser alguém pra ser só seu é só não se esquecer: estarei aqui.

Bonzinho





Ele raramente discorda do que alguém diz. Está sempre sorrindo. É paciente quase o tempo todo, e quando se irrita, não demonstra. Evita ao máximo entrar em atrito com as pessoas. Leva desaforo pra casa. Engole seco. É amigo de todo mundo. Cumprimenta o motorista e o cobrador do ônibus, e sorri quando alguém pede desculpas por ter pisado no seu pé. Pede licença pra entrar e sair, está sempre pronto a fazer favores aos outros, agradece quando recebe algo. Quase impossível ouvir um "não de sua boca". Entre as mulheres, é o amigo legal para quem elas desabafam e contam que estão afim de outro cara. Entre os outros caras, é o sem personalidade. 

Ele é tudo isso aos olhos dos outros. Segundo a opinião popular, ele é o "bonzinho". 

Bonzinho é aquele cara que não chama a atenção das pessoas, para quem os outros olham com olhar de pena, e exclamam "ele é tão bonzinho", se por acaso ele virar assunto em alguma roda de amigos. Há os mais céticos que desconfiam da "bondade" do bonzinho, citando ditados de vó como "boi manso que derruba carroça", "lobo em pele de cordeiro", "é dos bonzinhos que eu tenho medo" e por aí vai. Mas na crença popular, o bonzinho é o cara ingênuo, bobo, que pode ser enganado facilmente, que pode ser ludibriado e nem percebe se for ignorado. 

Mas será que o bonzinho é tudo isso mesmo?

Arrisco dizer que em 90% dos casos, não. 

Bonzinho na verdade é o cara que tem preguiça de entrar nas mazelas da relação social, relação essa que insiste em tentar entender o outro e o adaptar ao seu mundo. O bonzinho é o cara que se relaciona superficialmente com todo mundo, não por ser ingênuo, mas por não ter a menor vontade de conhecer melhor quem não faz questão da sua presença. 

O bonzinho sabe que nem todo mundo é seu amigo, que nem todo mundo gosta dele como diz gostar e que nem todo mundo o vê como diz ver. Mas ele prefere manter a cordialidade com todos, pois além de evitar atrito com pessoas desnecessárias, pode filtrar os que vivem ao seu redor; ele distribui amizade, os amigos de verdade correspondem. Ele lança a rede. Os que voltarem são os que ele pode contar. 

O bonzinho tem total consciência de que o mundo é sim complicado, de que as pessoas não são boas e de que a qualquer momento alguém pode querer "ferrar" com sua vida e puxar seu tapete. Nesse caso ser bonzinho vira sua maior defesa; o bonzinho é o último a oferecer riscos, e sendo assim, consegue o que quer sem enfrentar grandes concorrências.

O bonzinho sabe que as mulheres em geral não se interessam por homens como ele. Mas quem disse que ele está interessado em mulheres que preferem os cafajestes? Deixe que elas quebrem a cara com os homens errados. Há, em algum lugar, uma mulher inteligente o suficiente para saber que esse é o tipo de sofrimento que pode ser facilmente evitado se ela tiver mais critérios para escolher seu homem, e dentro desses critérios o bonzinho é o cara que preenche quase todos os requisitos.  

Bonzinho é o cara que tem coisa mais importante pra fazer do que entrar nas discussões vazias e sem sentido que permeiam a rotina da maioria das pessoas, e prefere concordar com tudo a ter que manifestar opinião sobre as coisas ridículas que geralmente são tratadas como sérias por gente vazia e sem conteúdo. 

Bonzinho é o cara que vê todas as pessoas como iguais e merecedoras da mesma atenção, daí dedicar o mesmo tratamento a todos, desde o supervisor até o motorista do ônibus. 

Bonzinho diz sim pra todo mundo não por concordar com tudo e muito menos por ter medo de discordar, mas sim porque sabe que sua opinião própria é questão particular sua, e que é melhor concordar com os outros do que ter de dar satisfação sobre o que pensa.

Bonzinho não tem "paciência de Jó". Ele se irrita sim, se estressa como qualquer outra pessoa, mas ele resolve sua irritação e seu estresse de outro jeito. Em vez de descontar em quem vive ao seu redor ele prefere buscar a fonte da sua irritação e corrigir. 

Bonzinho é o cara que, na verdade, faz de tudo para viver bem. É o que guarda sua energia e emoções para as ocasiões certas, e em todas as outras ignora os fatos com sua suposta bondade. A bondade é sua forma de dizer "dane-se o mundo, eu quero é ficar bem". 

Eu Não Sou Gabriela





Sábado passado estava no metrô quando entrou um rapaz conversando no celular. Bom, "no celular" é modo de falar, pois ele falava tão alto que o vagão inteiro participou da conversa dele. Entre muitas reclamações numa briga tensa com a ex-mulher pelo direito de ver o filho de 5 anos, ele falava em alto e bom: "eu nasci desse jeito, você me conheceu assim e aceitou porque quis. Eu vou morrer assim, sou grosso mesmo, sou estúpido mesmo, sou teimoso mesmo e não vou mudar nunca, quem não gostar de mim desse jeito que vá embora e me deixe em paz".

Como deve ser horrível a vida de quem pensa assim...

Ano passado, no meu aniversário de 30 anos, em meio a uma crise existencial sem precedentes, escrevi que gosto de viver e que quero viver ainda muito tempo, se possível não apenas trinta, mas trinta vezes três. Hoje, completando 31, continuo com a mesma vontade de viver. Estou descobrindo só agora coisas que os outros descobriram há muito tempo atrás, e quero viver essas coisas boas que a vida me oferece. Mas a consciência que tenho esse ano é a de que, para viver com qualidade de vida, preciso estar aberto à mudanças. 

Quero não apenas viver, mas estar atento à minha vida. Perceber as coisas que me acontecem e que acontecem à minha volta e filtrar o que posso absorver e o que devo rejeitar. Perceber o que devo reforçar e o que devo mudar. Há sim coisas em mim que precisam de mudança urgente, hábitos que tenho e preciso abandonar, e coisas que não faço e preciso começar a fazer. Quero estar aberto ao novo em minha vida. Abraçar pessoas que, com a cabeça de antes, eu não abraçaria. Fazer coisas que eu não faria. Ser mais leve. Encarar as coisas com menos seriedade.  

Eu não sou Gabriela e não vou morrer da forma como nasci. Afinal, se fosse pra encerrar a vida da mesma forma como ela começou, que graça teria? O legal da vida são as mudanças. Você se comparar com anos atrás e perceber que muita coisa além da idade mudou; perceber que mudaram "hábitos, lugares, inclusive as pessoas ao redor". O legal de sentir o tempo passar é que frases de efeito como "a vida passa depressa" deixam de ser apenas frases bonitinhas para ser uma constatação. O tempo está passando. Se eu não me atualizar e correr junto, vou apenas assistir a vida passar e ficar para trás. E isso é tudo o que eu não quero.

Preciso sim, me mexer. Me reinventar, me reposicionar. Continuar atualizado. Estar alerta e trazer para mim o que é bom. Se precisar mudar, mudarei. Só não quero ficar para trás na vida. Trinta e um anos denunciam que o tempo não para, mas mostram também que ainda é tempo de pegar o trem, mesmo já em movimento.

Quero mudar para estar apto a aproveitar tudo de bom que a vida oferecer, pois a vida não é um bem renovável. Ela se gasta e não volta mais. Cada tempo perdido é realmente perdido. Como diz José Mujica no vídeo abaixo, que guardo como reflexão para esse aniversário, não se pode comprar vida.

E vamos em frente!


O que é fazer terapia?




Nós brasileiros não temos o hábito de construir sótãos em casa, mas a figura do sótão é bem interessante: o lugar entre o teto e a cobertura de telhas, destinado a tubulações, caixa d’água, instalações elétricas e outras estruturas necessárias para o funcionamento da casa. É geralmente um lugar de difícil acesso, escuro, sem ou com pouquíssima ventilação, isolado do convívio familiar, escondido de tudo e todos, para onde raramente vamos e nunca levamos ninguém (alguém convida o amigo para conhecer o sótão de casa, algo como “oi amiga, você vai adorar meu sótão”?).

O sótão quase sempre tem a função de “depósito” da casa, onde você guarda todo tipo de tralha e cacarecos: coisas que não vai usar mais, mas que não tem coragem de jogar fora, coisas que te trazem boas ou más lembranças, coisas que foram úteis um dia, coisas que pensa que ainda pode usar numa emergência, coisas para doação, mas que nunca são doadas de fato, coisas e mais coisas com as quais você não quer se encontrar diariamente, mas não consegue se desfazer. Aquele móvel velho que foi presente de casamento, aquele vaso de plantas que veio da sua tia-avó, o abajur importado que já não funciona há anos, a enciclopédia Barsa que você usou para o exame de admissão no grupo escolar dos anos 70, o livro de poesias antigo, a decoração infantil do quarto do seu filho que agora tem 30 anos, seus cadernos do tempo de faculdade, o guarda-chuva que tanto te serviu mas que não para mais fechado, o material de eleição do Lula de 1989, o jogo de xícaras já sem alça e cheias de trincos que sua amiga te trouxe da Espanha em 1999. Coisas velhas, coisas antigas.. Simplesmente deixa lá no sótão. Não usa, mas não joga fora; sabe que está lá. Vai que precisa algum dia, né? 

O sótão não é lugar onde se visita com frequência. Aliás, a proposta é exatamente essa: um espaço ali, dentro da sua casa, mas para onde você vai o mínimo possível. Só entra para colocar alguma “nova” tralha que vai se juntar às outras já guardadas lá. Entra, deixa a tralha nova, dá uma olhada rápida nas antigas, fecha o alçapão e volta para a vida normal em família, enquanto o sótão volta a ser o local escuro e sem vida de sempre. 

Mas aí uma hora você percebe que o sótão está cheio demais. Você mal consegue andar por entre as tantas coisas velhas acumuladas ao longo dos anos, e chega a uma conclusão: precisa fazer uma limpeza urgente. Algumas coisas precisam sair dali logo. Você até tem boa vontade e tenta se desfazer de algo; mexe em uma e outra caixa, joga uma embalagem velha fora, mas percebe que limpar seu próprio sótão é mais difícil do que parece, e que sozinho não vai conseguir. 

E chama uma pessoa para te ajudar. 

Não só te ajudar, mas essa pessoa tem total liberdade para indicar o que deve ser mantido e o que deve ir para o lixo no seu sótão. Essa pessoa vai, junto com você, vasculhar suas tralhas, relembrar com você detalhes do passado envolvido em cada objeto encontrado, opinar sobre coisas que aconteceram e os motivos que te levaram a guardar aquela tralha, e te ajudar a encontrar o melhor destino para essas coisas que você não usa mais. 

Aos poucos, com o tempo, você percebe que o sótão vai ficando mais limpo. Num dia você consegue enxergar o piso do sótão, há tanto tempo encoberto de poeira. Num outro percebe que já se desfez de muita coisa velha, e começam a sobrar cantos vazios. Quando se dá conta, já está fazendo planos para o sótão, pois a quantidade de coisas ali guardada é tão pequena que já não justifica mais um espaço bom como aquele servir apenas como depósito de quinquilharias. Começa a planejar uma escada que suba ao sótão, uma boa localização para uma janela, uma boa iluminação e, quem sabe, com um pouco de investimento aquele espaço não vire um confortável quarto para visitas. 

E então você vê pela primeira vez seu velho sótão cheio de tralhas virar um espaço bonito, limpo e útil. 

Isso é fazer terapia!

Igual a Todo Mundo



As pessoas fazem de tudo para serem diferentes. Mudam visual, adotam um novo estilo, aderem à tribos. Até mesmo os mais “comuns”, os “normaizinhos” batem no peito para exaltar as características, mesmo que poucas, que os difere dos outros. Querem se destacar da multidão. Querem ser vistos com outros olhos, de um jeito especial. Alguns, na tentativa de se destacar dos demais, passam a vociferar palavras de ódio contra uma “sociedade morna”, que “faz tudo igual”. Atacam o “comportamento de boiada” e dizem que só os que são diferentes é que tem sucesso na vida. Querem por toda maneira serem reconhecidos por não serem iguais aos demais. 

Eu não. Eu quero mesmo é ser igual a todo mundo. 

Quero me sentar na mesma mesa de bar que todo mundo senta para beber a mesma cerveja que todo mundo bebe nas sextas-feiras à noite, como todo mundo faz. Quero rir das mesmas piadas sem graça que todo mundo ri. Quero comer os mesmos petiscos que todo mundo come. Quero ver o filme que todo mundo mundo está vendo, no mesmo cinema em que todo mundo costuma ir. Quero ouvir a mesma música que todo mundo ouve, ou pelo menos saber que existe, caso não faça parte do meu gosto musical. Quero usar o estilo de roupa que todo mundo usa, cuidar do visual como todo mundo cuida. Quero fazer os mesmos passeios que todo mundo faz, comer o mesmo lanche de rua que todo mundo come, correr para pegar o ônibus como todo mundo faz e descer correndo a escada rolante para pegar o metrô que já está na plataforma, assim como todo mundo – ou como todo paulistano.

Assim como todo mundo, quero ser aceito do jeito que eu sou. Quero ter perto de mim pessoas para as quais não preciso disfarçar a voz, murchar a barriga, esconder a cicatriz do braço, mudar comportamento, mentir sobre minha posição social nem minha história. Quero pessoas que não me evitem por eu ter uma doença A ou B, por ter uma disfunção X, ou por não ter o tamanho e peso ideal. Assim como todo mundo, quero ter meu grupinho, minha “panelinha”, gente com quem eu possa ficar à vontade, com quem possa baixar a guarda, sem medo de julgamentos e comparações. 

Assim como todo mundo, quero que lembrem de mim. Que meu nome seja citado quando organizarem algo, que se eu não estiver presente me liguem pra avisar “vamos sair, vem com a gente?”, e mesmo se eu declinar insista com um “faz uma forcinha pra vir, vai ser legal”. Quero que minha companhia seja desejada por alguém. Quero que pensem “ele vai gostar disso” quando virem algo qualquer por aí. Quero que digam “ nossa, lembrei de você ontem”, ou “vi uma coisa que é a sua cara”. 

Assim como todo mundo, quero me sentir parte de algo. Me envolver em alguma ação. Ter um compromisso além do trabalho. Algo para me dedicar nas “horas vagas”. Algo mais sério que um hobbie. Quero ser útil em alguma coisa, e ser indispensável em algum lugar, sem o compromisso do cartão de ponto da empresa. Quero que me falem “você fez falta ontem” quando não puder ir. 

Assim como todo mundo, quero alguém para amar. Quero alguém com quem conversar coisas que não converso com o amigo, comentar sobre o cliente bizarro que atendi no trabalho, alguém que fique quando todos os outros se vão. Alguém que faça parte dos meus planos quando penso no meu futuro. Alguém para quem dar o kit de maquiagem que ganhei acidentalmente na promoção da loja, assim como o aconselhado pela atendente: “leva pra namorada”. 

Assim como todo mundo, quero ver as coisas de um jeito mais simples. Encarar a vida sem o peso que muitas vezes nos auto impomos. Quero não ter tantas regras de convivência, e assim ser mais livre para improvisar, marcar coisas fora de hora, experimentar o que nunca me havia permitido. Quero ter a leveza de viver que nos permite ir onde nunca pensaria em ir, falar sobre o que nunca falaria, conviver com quem eu não conviveria. 

Isso é carência? Se sim, assumo que, igual a todo mundo, sou carente. Talvez porque carência seja exatamente isso: essa necessidade inerente ao ser humano de ser igual a todo mundo. 

Diferente? Pra que? Eu quero mesmo é ser igual.

Onde Está Deus?




Algumas vezes as pessoas me perguntam se eu acredito em deus. Respondo que sim, acredito, mas depende: de qual deus estamos falando? 

Não creio no deus de porte europeu de barba e cabelos brancos longos, sentado num trono grande e branco, rodeado de anjos tocando harpa que o bajulam dia e noite. Não creio no deus "controlador de voo", que sabe o que se passa em cada parte do mundo, e está atento a cada passo até mesmo da mais imperceptível das pessoas. Não creio no deus poderoso, vingativo, que mata e fere para justificar os que se dizem seus fieis. Não creio no deus rígido, que lança em algum inferno quem não obedece suas regras, por vezes ridículas. Muito menos acredito que ele esteja num paraíso perfeito, num ceu com ruas de ouro e cristal, cheio de jardins bonitos e pássaros que cantam. 

Creio sim em deus. Mas creio em deus como a motivação que me faz sair da cama todos os dias de manhã e enfrentar o trânsito caótico de uma grande cidade para um dia de trabalho cansativo. Para mim deus é a sensação boa que sinto quando ouço uma música que gosto, quando leio o melhor livro da minha vida, ou quando assisto uma boa peça de teatro. Deus é o bem estar causado por um bom banho depois de um dia cansativo. Deus é a risada descontrolada da mesa de bar do happy hour com os amigos. É o ambiente aconchegante da casa dos avós. Deus é o “parabéns” emocionado que você recebe de seus pais ao conquistar uma vaga na faculdade ou um novo emprego. É a sensação de realização causada pela vitória da equipe da qual você participa. É ouvir “papai” pela primeira vez. É o êxtase que se sente após uma apresentação bem sucedida. É conseguir finalmente, algo com que você sonhava tanto. 

E onde ele está? Deus está no olhar de um apaixonado ao encontrar sua amada. No sorriso sincero e alegre de uma criança ao receber um presente. Deus está no abraço de amigos que não se viam há muito tempo. Deus está na música cantada ao redor do fogo pelos amigos que curtem um fim de semana prolongado. Na alegria do meu cachorro ao me ver chegar em casa. Está no rosto da pessoa desconhecida, de quem não conheço sequer o nome, mas sei que é muito mais do que aquilo que vejo. Deus está no pão que sacia a fome do morador de rua, depois de horas sem algo para comer. Está no copo de água que refresca o calor do que trabalha o dia inteiro sob o sol. Está na cadeira em que se senta a pessoa que passou o dia em pé. Está no silêncio confortante de quem passa consegue escapar de um ambiente com barulho ensurdecedor.

Se quiser encontrar deus não olhe para cima, muito menos feche os olhos. Olhe pra frente. Mire. Olhe nos olhos dos outros. Deus é gente. 

Deus é o que te faz bem. 

Catarina (E No Desvario Seu)

O texto abaixo é uma montagem minha de um monólogo inspirado no poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, que virou cena no espetáculo Da Placenta Ao Túmulo, apresentado em dezembro pela Cia de Segunda, equipe de teatro da qual faço parte. O texto segue o roteiro de uma cena teatral, com todas as orientações de atuação necessárias. Caso queria usar só me avise, por favor! 

Formato do palco: flexível.

 ***
(em tom de desespero

Catarina! Catarina! 

Luzes se apagam. Sai de cena e volta com as duas garrafas iluminadas. 

Catarina, você está aí? Cadê você, Catarina? Alguém viu a Catarina? 

(Sai olhando no rosto de um por um dos presentes, iluminando com a garrafa. Escolhe uma pessoa da plateia para ser a “Catarina”). 

(Falando com a pessoa da plateia escolhida) Catarina, é você? Deixa ver. Hmm, não, você não é a Catarina.  

(Senta-se no meio do palco e começa a conversar com a plateia. Ar inocente, como criança). É que a Catarina vem me buscar hoje, sabia? Ela vem, ela me disse que vinha. Você deve estar se perguntando “mas como ele sabe disso?”. É que eu falo com ela todo dia. Mesmo ela estando na lua a gente conversa todo dia. É, ela tá na lua. Na lua. 

(Pausa. Brinca com a garrafa. Chama a atenção de uma pessoa da plateia

A Catarina adorava a lua. Toda noite a gente reservava pelo menos alguns minutos pra olhar a lua. A Isabela também adorava ver a lua. Ela era desse tamanho assim, ó. Parecia uma flor. Pausa. Brinca com a garrafa. 

(Chama a atenção de outra pessoa da plateia) Ei, você! Você gosta de flores? As pessoas parecem flores, finalmente. A Catarina sempre dizia isso. 

(Nova pausa. Agora perde o ar inocente de antes e adota um tom sério, reflexivo)

A Catarina ia levar a Isabela na escola, como ela fazia todo dia, mas estava chovendo muito e ela tinha acordado atrasada. Só que eu também estava atrasado pro trabalho. Meu chefe já tinha me ligado perguntando a que horas eu ia chegar. (Simula um telefone com uma das garrafas) “Ei, você está atrasado, vou descontar do seu salário, e a reunião marcada? Você não vem?”. Aquilo foi me irritando, me irritando, pensei que eu ia enlouquecer e no meio disso tudo a Catarina me aparece e diz “amor, me dá uma carona?”. (Pausa, como se estivesse muito irritado). “Não Catarina, não posso te dar carona”. (Olha para as garrafas e grita como se estivesse gritando com uma pessoa) “Quer saber? Vai a pé, Catarina! Se vira! Eu já tenho problemas demais, dá seus pulos e se vira pra levar essa menina pra escola”. Ela saiu chorando e levou a Isabela pra escola à pé. Aí no caminho elas iam, e vinha vindo o caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão. Catarina e Isabela. Caminhão.(Faz ruído de batida. Mostra os cinco dedos da mão para a plateia.) O motorista do caminhão, a velha que estava no ponto de ônibus, o rapaz na bicicleta, a Isa e a Catarina. Cinco mortos. 

(Nova pausa)

Sabe o que é curioso sobre a vida? É que algumas coisas a gente pode evitar, outras não. Eu não poderia evitar que a velha estivesse no ponto naquele momento. Eu não poderia evitar que o rapaz estivesse passando de bicicleta naquele momento. Eu também não poderia evitar que o caminhão perdesse freio naquele lugar. Mas eu poderia ter evitado que a Catarina e a Isabela estivessem ali naquela hora. Foram cinco, mas poderia terem sido só três, se eu tivesse dado carona pra elas. Foi minha culpa. Elas ainda estariam vivas. E eu não estaria aqui. A gente estaria em casa, agora. A Isabela estaria correndo e brincando. A Catarina estaria lendo poesia. 

(Suspira) Foi minha culpa. 

 (Pausa

(Como se tivesse tomado um susto) Ah, mas o que importa é que a Catarina vem me buscar hoje. Ela falou que vai me levar pra lua, com ela. Mas antes eu tenho que tomar todos os remédios de uma vez, tudinho de uma vez. E eles tão aqui. Vou tomar tudo. (Toma os remédios). Aí a Catarina vem me buscar, e nós vamos ficar juntos pra sempre. A Catarina... A Isa... Eu... 

(Faz que passa mal e cai no chão. Morte passa e leva o louco e as garrafas.)

Vamos correr juntos?



Na empresa em que eu trabalho o dia das crianças é sempre comemorado na sexta feira que antecede o feriado de doze de outubro. O dia sempre é bem agitado, pois a empresa libera os funcionários para trazerem seus filhos de até doze anos. Isso significa corredores cheios de crianças correndo por todos os lados, falando alto, comendo doces e coisas do tipo. No fim acaba sendo divertido até para os adultos. Mesmo os que não tem filhos - como eu - acabam gostando do dia e da alegria que a criançada trás para o ambiente de trabalho. 

Mas uma coisa me chamou a atenção no meio de toda essa agitação: estava descendo para tomar café quando vi uma menina correndo pelo corredor e, num certo ponto, encontrou um menino encostado na parede, comendo pipoca. A que corria cutucou o outro e disse: "vamos correr juntos?". Nem precisou de resposta. O que estava encostado largou o saco de pipoca no chão e os dois saíram destrambelhados pelo corredor disputando quem corria mais. 

Quando vi isso me perguntei: em qual momento da vida perdemos essa capacidade de desfrutar da companhia do outro? Em qual etapa passamos a nos preocupar com a sexualidade, com a cor da pele, com a classe social, com a religião do outro? As duas crianças não perguntaram nada uma para a outra. Sequer o nome. Apenas queriam correr juntos. Não interessa se um é filho de pais gays ou de mãe solteira, se foi criado com avós, se frequenta escola pública ou se mora em favela, se tem alguma doença, se é bonito ou não, se usa boas roupas, se frequenta os melhores shoppings. Criança não se importa com essas coisas. Essas preocupações são dos adultos. Para a criança o outro é apenas um igual com quem dividir uma brincadeira. Só isso. 

Sim, as crianças tem muito a nos ensinar. As vezes penso que elas mais ensinam do que aprendem. Bem que o dia das crianças poderia servir aos adultos para reflexões como essas: quais qualidades das crianças nós devemos tentar resgatar? 

A capacidade de correr juntos poderia ser uma das primeiras. 

Estranho




Essa terra não é minha
Esse povo não é meu
Às vezes eu me pergunto:
“O que foi que aconteceu?”

Essa gente é tão estranha
Não entende o que eu falo
Até tento puxar assunto,
Mas desisto e então me calo.

Essa gente acha estranha
Os costumes que eu tenho
Mas eu só repito os hábitos
Do lugar de onde venho.

Essa gente é esquisita
Se contenta com tão pouco
Se fosse na minha terra
Seriam chamados de loucos

Essa gente se acha rica
Porque tem algum dinheiro
Mas nem sabem que minha terra
Tem riqueza o ano inteiro

As vezes eu me pergunto
O que foi que aconteceu?
Essa gente é estranha mesmo
Ou o estranho aqui sou eu?

Trinta Vezes Três



Não é fácil chegar aos trinta anos. Cheguei a eles ontem, dia 15 de agosto, mas ainda não acostumei com a ideia. Vai levar uns dias pra aceitar que saí da casa dos vinte. 

Acho que é por isso mesmo que chegar aos trinta é difícil. Não sou mais o “garoto com um futuro todo pela frente”. Já cheguei nesse futuro que me falavam há dez anos atrás. Espera-se de um cara com trinta anos que, se já não tem algo bem sucedido na vida, que tenha pelo menos um bom projeto engatilhado. E não tenho nem um nem outro. Ainda estou na fase de descobrir o que quero da vida. Mas será que algum dia a gente descobre exatamente? 

As vezes esqueço a idade que tenho. Penso que ainda sou o adolescente de 17 anos – e as vezes me comporto com um. Aliás, alguns dos melhores amigos que tenho tem menos de 20 anos. As vezes, pra minha alegria, alguns deles falam “meu, eu pensei que você tivesse tipo, minha idade, sei lá!”. Quem dera! 

Agora, olho para minha vida e faço aqueles questionamentos que a gente faz quando tá na bad, ou quando tá bêbado, sabe? Coisas tipo “o que eu tenho na vida?” Bom, faço coisas que gosto – gosto de tudo que faço? Não, mas quem gosta? Tenho à minha volta pessoas que sei que gostam de mim do jeito que eu sou, mesmo com minhas imperfeições e manias. Tenho sim, meus traumas e meus problemas, mas venho tratando todos eles, um a um. Tenho uma família que, mesmo pequena, se importa comigo. Que mais eu quero? 

Chego aos trinta com novo ânimo. Tenho a vontade de viver dos 20, a responsabilidade dos 40 e os cabelos brancos dos 70. E assim vamos levando. O futuro? Não sou eu quem me navega. Quem me navega é o mar, então deixa a vida me levar. Vida, leva eu? 

Se continuar como estou hoje, quero viver mais trinta. E outros trinta. Se chegar aos noventa com a vontade de viver que tenho hoje, sei que terei sido muito feliz. O que vai me acontecer? No caminho eu descubro.

Carpe Diem

O Metrô




17:00. Desliga o computador, aguarda o leve sinal sonoro do Windows avisando que o programa está definitivamente encerrado. Pega sua bolsa, guarda nela o livro que deixou o dia todo em cima da mesa e sai da sala, rumo à registradora eletrônica de ponto, para ali encerrar oficialmente mais um dia de trabalho. Cumprimenta alguns conhecidos que encontra por ali, jogando conversa fora enquanto esperam algo. Passa seu crachá, guarda-o na bolsa e sai dos domínios da empresa, rumo ao elevador que o levaria do 15° andar ao térreo, para a luz do sol. Corredor vazio. Ótimo, não tinha a intenção de conversar. Sua cota de assuntos triviais para quebrar gelo já se encerrara há algumas horas, e tudo o que queria naquele momento era o silêncio libertador do fim do dia, permitido apenas àqueles que sabem que o dia seguinte será religiosamente igual ao anterior, e assim sucessivamente, até que o próximo fim de semana venha com a carta de alforria que dá a falsa sensação de liberdade que a vida pessoal nos faz acreditar termos. 

Entra no elevador, que também está vazio. E vazio permanece até o térreo, de onde sai sem cumprimentar ninguém em direção à porta. Ainda de dentro da recepção pode ver a rua, agitada como sempre. Sai pela porta que o recebe todos os dias pela manhã, e logo de cara esbarra com um universitário que passa distraído ouvindo sua música no fone de ouvido. Educadamente o rapaz pede desculpas e pergunta se o machucou. Apenas agradece e diz para não se preocupar-se, pois estava bem. Queria ter perguntado ao jovem que música ouvia com tanta concentração que o fez desligar-se do mundo externo, mas pensou que o rapaz poderia entender sua pergunta como uma repreensão pelo esbarrão, e deixou como estava. Mas ficou curioso. Queria saber apenas qual era a canção que tinha esse poder de desligar do mundo qualquer pessoa mentalmente ativa, para escuta-la e fazer dela seu hino. 

Segue pela rua, enquanto observa os bares já cheios de pessoas aparentemente alegres, que bebem enquanto conversam coisas sem sentido. Chega à estação de metrô onde, assim como em todos os outros dias, embarcaria sentido seu bairro, comum como qualquer outro. Conhece bem aquele espaço: uma entrada pequena sem qualquer glamour, de arquitetura básica, sem qualquer decoração, com uma porta quadrada simples, escadarias de cimento que levam às bilheterias e, ao fundo, as catracas que dão acesso à plataforma onde tomaria seu vagão normalmente. 

Desce as escadas sem olhar para frente para evitar qualquer contato visual com qualquer pessoa, evitando assim o risco de encontrar conhecidos com quem teria de trocar novos papos furados, o que absolutamente não queria naquele momento. Se dirige à bilheteria e pega a fila, esperando sua vez para comprar o bilhete de volta. Sempre pensava como era estranho o fato de um pedaço de papel que nem sabia dizer de qual tipo seria era seu passaporte a um outro ambiente, aquele a qual realmente as pessoas almejavam quando ali entravam. Sim, pois não deve haver pessoa que entre numa estação de metrô com a única finalidade de passar um tempo ali, observando o movimento. Não em plena consciência, talvez. Todos os que adentram uma estação querem apenas esfregar seus traseiros numa catraca fria de metal e descer à plataforma, para embarcar em qualquer linha de metrô que lhes dê acesso ao seu destino. E era isso que ele queria: chegar ao seu destino. Não tinha porque perder tempo com coisas supérfluas naquele momento. Aliás, perder tempo era uma das coisas que mais evitava fazer. Não que fosse atarefado, mas gostava de parecer ser. Assim parecia ser mais respeitado. Gostava de andar depressa como todos os outros. Não que tivesse pressa, mas assim pareceria importante, como os demais gostavam de parecer serem. 

Perdido em seus pensamentos nem observou quando chegou sua vez de ser atendido por uma bela moça de olhos claros e cabelos negros que o olhava atentamente, esperando que fizesse seu pedido. Sua cabeça pensante se concentrou na jovem, a única que o olhava atentamente há dias. Não pode deixar de observar a sobrancelha volumosa combinando com o cabelo escuro e o sinal preto no canto esquerdo da boca, que contrastava com a pele tao clara. Concentrou-se na boca vermelha e volumosa da jovem, e viu quando seus lábios se moveram e pode ver seus dentes incisivos grandes, maiores que os demais, o que, combinado com a pinta preta no canto da boca, dava à jovem uma aura ao mesmo tempo infantil e maliciosa

"Posso ajudar?", disse friamente a moça, interrompendo completamente sua análise da personalidade física da garota, que agora parecia perder todo o encanto, já que havia sido chamado ao mundo real quando a moça o fez lembrar do motivo pelo qual estava ali: comprar um bilhete de metrô, e nada mais. "Um unitário, por favor", respondeu sem olhar nos olhos da pobre jovem, que recebeu de suas mãos o dinheiro e entregou logo em seguida o bilhete, já olhando para o próximo da fila para não perder tempo. 

Passou pela catraca gelada e desceu as escadas rolantes sentido a plataforma, que já estava lotada de pessoas desconhecidas e comuns, que assim como ele iam a algum lugar. Para onde? Cada um sabia, ou devia saber, onde ia. Cada um ali, com sua vida, sua história, seu passado e planos de futuro devia saber o que queria ali realmente: ir à faculdade, ver os pais, chegar em casa, namorar. Ele iria apenas para casa, para voltar a ser o solitário de sempre e aguardar em frente a TV sua hora de dormir para, no dia seguinte, iniciar tudo novamente. 

Desceu as escadas e posicionou-se onde pode, para ter ao mesmo tempo a visão da vinda do vagão e poder observar os que desciam a escada. Não que esperasse alguém, mas gostava de observar os rostos dos desconhecidos. Disfarçava, claro, desde a vez em que fora abordado por um dos seguranças do metrô, que suspeitou de seus movimentos suspeitos ao pé da escada, olhando um por um como quem procurasse alguém. Continuava a observar as pessoas, mas de canto de olho, como se não olhasse para lado nenhum. Foi assim, observando aquela multidão de caras desconhecidas, que viu o rosto dela. Apertou os olhos para ver de novo. Tentou lembrar se havia bebido, mas não, pois estava voltando do trabalho. Olhou novamente para ter a certeza de não a estar confundindo com outra comum desconhecida. Mas não estava. Realmente era ela quem estava ali. Mas como assim? Por que exatamente naquele lugar e naquele momento? Há quantos anos não a via? Fez as contas rapidamente e chegou a dez anos. Sim, haviam se passado dez anos desde a última vez em que a vira. Ainda tinha nítida a lembrança daquele momento, em que ele sempre julgara ser a última vez em que a veria, quando ela virara as costas e seguira pela rua, se perdendo entre as pessoas após dizer-lhe que seria melhor para ambos se cada um seguisse sua vida. Aquele momento fora um divisor de águas em sua vida. Ao perdê-la de vista na rua, perdera também seu chão, suas colunas, suas paredes. Desde aquele dia sentia-se em solo lunar, flutuando sem saber para onde ir e nem como chegar a qualquer lugar. Ela levara junto consigo a força da gravidade psicológica que mantém nossos pés no chão e nossa mente em foco. Depois de três anos compartilhando momentos bons e ruins, experiências boas e outras desastrosas, momentos constrangedores e outros bastante acolhedores, brigas e sexo, aquela conversa numa calçada encerrara uma parte de sua vida, a mais produtiva, a mais significativa, e sem saber ela o havia empurrado ao um fosso de ostracismo e inércia, a qual ele fazia questão de honrar todos os dias com sua vida oca e sem sentido. 

Ao vê-la ali, descendo as mesmas escadas por onde ele havia acabado de passar, sentiu seus olhos virarem e seu estômago embrulhar. Não necessariamente embrulhar. Só naquele momento entendeu o que a expressão "borboletas no estômago" queria dizer. Não sabia como reagir. Só sabia que não a deixaria vê-lo. Bom, naquela imensidão de pessoas, seria realmente quase impossível que ela o visse ali, até porque provavelmente ele era a última coisa que passava na cabela dela. Com essa certeza em mente sentiu-se mais a vontade para observá-la, e perceber que o tempo não a havia mudado em nada. Seu rosto ainda tinha as formas arredondadas que ele tanto acariciara, e seus cabelos pretos ainda pareciam tão bem cuidados como antes. Estava séria, mas não pode deixar de lembrar de seu sorriso, com dentes brancos e bem alinhados, apesar de pequenos, o que lhe dava um sorriso quase infantil. Será que ela ainda formava covinhas no rosto quando sorria? Seu corpo ainda estava em forma. A camisa branca que usava era pouco para esconder o formato do corpo que ele tanto desejara e possuíra quando estavam juntos. Os seios pareciam ainda do mesmo tamanho, pequenos e firmes, nos quais ele adorava pousar a cabeça para assistir filmes que ele não entendia nas tardes de domingo, enquanto comiam pipoca com gosto forte de manteiga. A calça preta social também deixava em evidência os quadris nos quais ele tantas vezes colocara as mãos para agarrá-la, nessas demonstrações públicas de posse que os casais apaixonados adoram fazer. Ela ainda continuava linda e sexy como fora há dez anos atrás, e se lembrou de quantas vezes sentiu ciúmes ao pensar que aquele corpo maravilhoso, que lhe pertencia, andava sozinho no dia a dia, à mercê de olhares tarados sedentos por sexo fácil. Lembrou de quantas vezes lhe aconselhara a tomar cuidado com as ruas e com o metrô - que ironia! - onde sempre haviam maníacos que se aproveitavam do calor da multidão para praticar suas obscenidades em mulheres indefesas. Lembrou também que ela ria a cada conselho que dirigia à ela, talvez o considerando bobo por pensar que ela fosse uma simples jovem indefesa, e não uma mulher cheia de atitude e que sabia muito bem se defender sozinha, como sempre fora. 

A cada passo ela se aproximava mais da plataforma, e de onde estava, o encontro seria inevitável. Por isso saiu de onde estava e atropelou meio mundo para procurar um lugar de onde ela não pudesse vê-lo. Saiu andando, ora pedindo licença, ora esbarrando e empurrando, e ao mesmo tempo olhava para trás para não perdê-la de vista. Não queria que ela o visse, mas não queria perdê-la mais uma vez entre a multidão. Viu quando ela completou seu percurso na escada rolante e parou, como se procurasse alguém. De onde estava seria facilmente observado, então tratou de continuar andando. Seguiu em frente, mas olhando para trás para não perdê-la de vista. Viu quando ela olhou em sua direção e começou a andar. Pronto, ela me viu, pensou. Desistiu de sumir e parou. Um homem ao seu lado protestou por estar na frente de seu campo de visão para o trilho, de onde veria quando o metrô chegasse, e resolveu voltar um pouco para trás. Criar tumulto ali naquele momento seria a pior forma de se esconder. Ela continuava vindo em sua direção e agora sorria. Ele fez como se não tivesse visto e apenas esperou que ela se aproximasse. Olhou para frente para ajudar no disfarce de homem desatento, e quando olhou novamente para trás viu que ela havia parado um pouco atrás, cumprimentando um rapaz que ele havia acabado de empurrar enquanto fugia dela. Viu quando ela o beijou na boca e se deixou ser abraçada por ele, aconchegando-se em seu peito e voltando seus olhos para o trilho do metrô, assim como todos os outros. É, ela não o havia visto. Sua simpatia e sorriso - com as covinhas de antes - haviam sido dirigidos para o outro homem com o qual ela estava agora, e com quem parecia feliz e confortável. Ele pensou que eram para ele, mas não. Assim como há dez anos atrás, ele novamente era uma pessoa como qualquer outra para ela, apenas mais um em meio a multidão de rostos desconhecidos. 

Seguiu mais à frente, para não correr o risco de embarcar no mesmo vagão que o casal apaixonado que esperava pelo mesmo destino que ele. Sim, o destino era o mesmo, mas os caminhos eram diferentes. Sentiu raiva de si mesmo por pensar que, assim como ha dez anos atrás, as coisas poderiam ter mudado e que pudesse receber novamente alguma atenção dela. Pensou que devia seguir com a própria vida. Iria mostrar a ela que ele também era competente o suficiente para seguir com a própria vida e, se ela havia encontrado outro homem para amar, ele encontraria uma outra mulher. Lembrou-se da atendente da bilheteria. Pensou em subir lá e, numa atitude completamente maluca, pedir-lhe em casamento sem nem saber ao menos o nome da garota. Pensou que poderia faze-la desistir da vida de atendente de bilheteria e levá-la a conhecer um outro mundo. Mas antes de qualquer coisa, queria ter uma outra mulher para passar por perto do casal que ainda estava na plataforma. Esbarraria nela de propósito com sua nova noiva que acabara de conhecer e usaria uma carga extra de conversas triviais, coisas do tipo "que coincidência", "quanto tempo", "nossa, você está tão linda quanto antes", "sim continuo no mesmo emprego", apenas para que ela visse que, se ela tinha seguido em frente, ele também. Mas o metrô enfim veio e jogou por terra todo o seu plano de vingança afetiva contra ela, que sequer sabia que ele estava ali, aliás que talvez sequer pensasse nele naquele momento. 

Entrou no metrô e encostou-se como pode em uma barra de ferro já cheia de marcas de outras mãos que ali já haviam se segurando antes com a certeza de que aquela composição, aqueles vagões e aquela estação eram a prova de seu fracasso como pessoa. Aquele ambiente era a prova de que ele havia parado no tempo e que nem havia percebido que dez anos haviam se passado desde o dia em que seu mundo havia caído. Talvez não fosse a primeira vez que ela tivesse usado aquela estação. Talvez passasse por ali todo dia. Talvez já tivessem se encontrado antes e ele nem a tivesse percebido. Talvez ela já o tenha visto em outras vezes e feito a mesma coisa que ele acabara de fazer. Mas isso não importava mais. Só ali se deu conta de que até aquele momento ainda continuava procurando um motivo para viver, um chão para pisar, um corrimão para segurar. Só ali percebeu que havia se transformado num ser amorfo, sem qualquer perspectiva na vida. 

E por isso decidiu: nunca mais entraria naquela estação de metrô.

Silêncio também é música



Imagine se numa orquestra todos tocassem o tempo inteiro juntos. Seria algo horrível de se ouvir! Já pensou trompetes com violoncelos, violinos com percussão, tubas e flautas, todos fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo? Arre, não quero nem imaginar. 

Sabe o que faz da música algo agradável e magnífico? Sabe o que faz Mozart ser tão apreciado? Chopin ser tão aclamado? Villa Lobos estudado e seguido por milhares de jovens sonhadores? Não, não são os acordes bem escritos e pensados harmonicamente; não são as escalas desenhadas perfeitamente para aquele ou esse instrumento; não são os intervalos de terça, de quinta, que fazem o jogo de notas serem mais do que bolinhas pretas e brancas numa partitura; não são as expressões italianas que parecem fazer mágica ao marcarem mudanças de andamento tão sensíveis à audição; não é a mudança de um “afetuoso” para um “agitato”, ou de um “cantabile” para um “scherzando”; não, não é a mudança de compasso nem a armadura da clave, nem os sustenidos e bemois tão belos quando executados à risca. Não é nada disso que trás beleza à música. Sim, essas coisas todas contribuem, claro. Mas sabe o que faz mesmo a diferença numa bela música? Saber respeitar o silêncio. 

Sim, o silêncio é tão importante que o primeiro teórico musical resolveu musicá-lo, também. Existem símbolos com valores diferentes e toda uma estrutura para abarcar o silêncio na música. Bom músico não é aquele que executa bem sua partitura. Bom músico é aquele que sabe respeitar o silêncio. 

Ninguém toca uma peça inteira do começo ao fim. Há momentos em que você brilha com seu instrumento e arranca aplausos da plateia, mas há momentos em que você precisa ficar em silêncio, quietinho, esperando no seu canto, dando a vez para que o outro brilhe, pra só aí voltar a executar. Sim, isso é o silêncio em música. Saber esperar e respeitar a vez do outro. Por quanto tempo? Sei lá, alguns bons tempos. 

Saber respeitar o silêncio, o momento de calar, é tão importante que a mais bela nota, o mais belo acorde, o mais perfeito sustenido executado num momento de silêncio torna-se uma aberração aos ouvidos. Silêncio é silêncio. Shiiii! Quietinho! Não é sua vez, agora. Espere! 

Quer saber quanto tempo deve ficar em silêncio? Siga sua partitura, está tudo escrito lá.

O que é liberdade?



Digamos que você está num programa de entrevistas, como o da Marília Gabriela, por exemplo, e ela lhe faça aquelas perguntas estilo “jogo rápido” antes dos comerciais, e uma das pergunta seja: “o que é liberdade?”. Você responde com um sorriso no rosto imaginando que a resposta seja fácil demais: “liberdade é fazer o que quiser, sem precisar dar satisfações a ninguém”. Ela sorri, gosta da resposta, e chama o intervalo comercial. 

Mas será que essa liberdade existe? 

Se você trabalha você deve satisfações ao seu coordenador, supervisor, etc. Se “fizer o que quiser” na empresa você simplesmente será convidado a integrar o time dos que recebem seguro-desemprego. 

Se você é casado você deve satisfações ao marido / esposa, se é que deseja ter um relacionamento saudável. Se “fizer o que quiser” ganhará um divórcio, as vezes litigioso e demorado. 

Se você é adolescente deve satisfações aos seus pais, que ainda respondem pelas bobagens que você fizer. Se “fizer o que quiser” pode perder a internet, a mesada e, dependendo dos pais que tiver, ainda ganhará umas boas bofetadas. 

Se você estuda deve satisfações aos seus professores, diretores, coordenadores. Se “fizer o que quiser” na escola simplesmente perderá o ano, isso se não for convidado a procurar outro local para estudar. 

E independentemente de qualquer uma das variáveis acima, você deve muitas satisfações àquele jovem esbelto, atraente para alguns, repugnante para outros, mas forte o suficiente para te imobilizar, tirar tudo o que é seu e te deixar sem nada, se ele quiser. Sabe quem é, né, aquele rapaz chamado Governo. Se “fizer o que quiser” com o Governo… Bom, nem precisa dizer o que acontece, né? 

Viu como é complicado falar em liberdade? 

Ninguém é totalmente livre no sentido de “fazer o que quiser”. Sempre temos que dar satisfação a alguém. Por menos obrigações que uma pessoa tenha na vida, em algum momento do dia ela deve explicações a alguém sobre alguma coisa, por menor que seja. 

Então como se sentir livre mesmo em meio a um mundo onde sempre haverá alguém esperando uma resposta sua? 

Liberdade é mais do que só fazer o que quiser. Liberdade é sentir-se livre, mesmo em meio a um mundo de obrigações e tarefas chatíssimas a se concluir no dia a dia. 

Liberdade é sentir-se livre emocionalmente. É amar, é querer bem, mas não depender de alguém para se sentir bem. Liberdade é a maturidade de saber que você continuará bem e inteiro, estando aquela pessoa ao seu lado ou não. 

Liberdade é saber que nem sempre se consegue agradar Montecchios e Capuletos e mesmo assim se sentir à vontade para seguir em frente num projeto, ainda que alguém discorde. 

Liberdade não é um estado físico ou uma situação. Liberdade é um sentimento, um estado de espírito. É possível ser livre, mesmo não estando livre. Existem muitos livres em cadeiras de rodas e muitos aprisionados com as pernas perfeitas. Muitos livres sem religião e muitos aprisionados pela fé. Muitos livres nos hospitais em estado terminal, e muitos aprisionados gozando de ótima saúde pelas ruas. 

Liberdade é ter a mente leve e aberta. Ser livre é não se deixar dominar pelo medo ou pela culpa. Ser livre é estar pronto para a novidade. 

Liberdade é aceitar-se como é, com seu passado complicado, suas manias, medos e estranhezas. Ser livre é “tirar a máscara que cobre o seu rosto”, é ser você, “mesmo que seja estranho ou bizarro”, como diz a música. 

Liberdade é não depender da aprovação de outros para se sentir bem. É fazer coisas para si mesmo, se presentear, se elogiar, alimentar o ego. É querer-se bem antes que os outros queiram. 

Parafraseando a mestra Clarice Lispector, liberdade é “palavra doida, repetida aos montes por aí”. É difícil de entender, mas fácil de viver. 

Liberdade é mais do que ser livre, é sentir-se livre.

O Verdadeiro Reynaldo Gianecchini


O texto abaixo é uma paródia de “O Verdadeiro George Clooney”, trecho do livro Em Algum Lugar do Paraíso, de Luiz Fernando Veríssimo. Sei lá, é bom avisar, né. Vai que alguém leva a sério… 


Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do Reynaldo Gianecchini o que está em jogo é a autoestima do homem brasileiro, os demais que não são Reynaldo Gianechinni. 

Qualquer qualidade que qualquer homem tenha, física ou intelectual, cai por terra quando comparado com Reynaldo Gianechinni. As mulheres não escondem sua adoração por Reynaldo Gianechinni. O próprio Reynaldo Gianechinni não faz nada para diminuir sua simpatia e dar espaço aos demais de sua espécie. Ele continua sendo cada vez mais Reynaldo Gianechinni. 

Quando anunciou-se que ele estava com câncer, lá no mais secreto do interior masculino houve uma expectativa pela sua morte, assim seria um homem perfeito a menos na disputa pela atenção das mulheres. E ele morreu? Nada, sarou e ainda agregou à si a imagem de homem batalhador, que não desiste da vida. Porra, Gianechinni, assim fica difícil. Reynaldo Gianechinni beira à perfeição. 

Como combater um concorrente desses? Só me resta a calúnia. 

Corre pela rádio-peão da Globo que ele tem mau hálito. Esse seria, inclusive, o motivo do fim do relacionamento dele com a Marília Gabriela, que dizia aos amigos que a vida era curta demais para se gastar tanto tempo comprando balinhas de hortelã. Atrizes que tem de encenar beijos com ele pedem adicional de insalubridade. 

Solteiro, rico e mora sozinho, ou seja, gay. Fala-se, inclusive, num amante argentino de 2,02m, a quem ele chama secretamente de “meu hombre” por telefone nos intervalos entre as gravações. 

Só toma banho aos sábados, o que resulta num chulé insuportável, atestado pelos colegas de cena que dizem ter dificuldade contracenar em qualquer situação em que ele não esteja calçado. Sem falar no cecê acumulado de dias sem ver a cor da água, ao que ele se justifica dizendo estar “colaborando com o planeta”, e diz ser um homem de “hábitos europeus”. 

E como é burro! Uma vez, quando questionado sobre qual seria o líder religioso mais influente do mundo, ele respondeu de pronto: Papa Mahatma Ghandi XVI. Sem contar que ele acha que “Islã” é um país. 

Não sabe usar internet e pensa que Whats App é algum site de celebridades. 

Além de tudo, tem seborreia e é petista.

Jhenny Cravo e Canela



Para os homens ela é a personificação da utopia da mulher perfeita; é a materialização do apogeu da perfeição feminina que povoa o imaginário comum masculino em qualquer parte do mundo; a prova da existência da beleza completa, daquela aparentemente inatingível que só se vê nas revistas. É ao mesmo tempo menina e mulher. A menina pura e singela que exala inocência e candura, a doce criança que desperta em nós os mais puros e sinceros sentimentos, a menina a quem, tal qual a uma flor nascida em meio a pedras, queremos proteger das maldades de um mundo cruel, cinza e acimentado, que não foi feito para abrigar tão cândida e frágil criatura. Mas é também a mulher adulta, a sensual, o "mulherão", aquela incrivelmente gostosa que desperta nos homens os mais profundos e secretos desejos carnais de prazer e sensualidade; aquela que causa confusão na mente masculina obcecada por sua beleza, que não sabe se a deseja loucamente com todo o prazer sexual que ela inspira ou se lhe presta tributo, como se fosse a deusa maior de uma religião onde a beleza é a atribuição divina predominante. Assim é ela, a nossa verdadeira Anita, a prova de fogo que separa um garoto de um homem. Garotos, perto dela, são só garotos, já dizia a canção. Homens, em contato com ela, são apenas meros espectadores do seu espetáculo natural de perfeição, do show de feminilidade que ela dá inconscientemente apenas sendo ela mesma. É a deusa grega capaz de desestabilizar qualquer Olimpo e provocar guerra entre deuses que a disputam como o grande prêmio a ser conquistado.

Ela desperta os mais variados sentimentos em quem a conhece. Em algumas mulheres provoca inveja, aquele recalque intrínseco ao psicológico feminino que faz com que ela seja nada menos que uma rival a ser desmoralizada; seu poder de atração sobre os homens incomoda suas iguais, que sabem que seriam facilmente derrotadas numa simples comparação com ela; isso desperta a ira, uma ira que muitas vezes toma forma de poder maquiavélico, poder esse que faz com que as que se sentem ameaçadas tentem derrubá-la a todo custo. Nos moralistas desperta raiva, a raiva típica dos que a desejam, mas que por força da imagem de "defensores dos bons costumes" se veem obrigados a conter seu desejo, e por isso usam a repulsa para espantar seus próprios fantasmas. Nos liberais de mente aberta ela trás a alegria de saber que ainda há no mundo pessoas bem resolvidas com o próprio corpo o suficiente para se despir para fotos e ensaios, sem a hipocrisia do "politicamente correto" e sem a mordaça da "moral e os bons costumes".

Ela define perfeitamente o que é ser "gostosa". Seu corpo tem as curvas que Niemeyer tanto homenageou em suas esculturas. Parece ter sido desenhada por encomenda, pelo mais competente designer que, tal qual um desenhista de pedras preciosas, pensou em cada detalhe, cada centímetro de seu corpo, com o objetivo de apresentar o modelo perfeito. Ela representa bem a mulher brasileira: sensual o tempo todo, atraente, até quando não tem a intenção de o ser.  Mas tem a elegância e o charme da mulher europeia, a mulher misteriosa que faz segredo sobre quem é o que que quer. 

Tal qual a Gabriela de Jorge Amado ela chama a atenção e divide opiniões. Causa alvoroço onde passa. É motivo de discussões e debates. Pessoas falam sobre ela, tentam entendê-la, defini-la. Impossível. Ela não se define nem pode ser definida. Sua beleza exuberante chega sempre na frente e faz com que alguns digam que ela é apenas um rosto bonito, mas logo atrás sua simpatia e o carisma calam a boca dos críticos. Ela tem a força e a garra do brasileiro, mas a doçura e simpatia de uma criança. É ao mesmo tempo maliciosa e ingênua. Forte e indefesa. Ela é a definição plena do que se entende por "mulher".


Ela é Jhenny Andrade, a Jhenny, a Gabriela dos tempos atuais.



A Gabriela que não tem vergonha de exibir o próprio corpo sensualmente. Ela não precisa passar pelo milagre dos retoques digitais. Não precisa das milhares de opções das mais caras maquiagens nem do talento dos melhores maquiadores. Ela dispensa qualquer complemento, qualquer "algo a mais" que possa torná-la peça de uma obra de arte. Por que? Oras, ela é a arte. Qualquer coisa além dela é desnecessário. É apenas ela. Jhenny, a nossa Gabriela. A que usa a força colossal da sensualidade para mostrar a fragilidade e singeleza que o seminu expõe. A que, ao tirar a roupa e expor seu corpo em minúsculos trajes para uma sessão de fotografia ou para se exibir para milhões de pessoas num octógono televisionado por emissoras ao redor do mundo, tira também a capa da conveniência social e se expõe de pele limpa, dá a cara a bater, sem se importar com a opinião de terceiros. Sua seminudez expões sua força e fraqueza. É a menina indefesa, que pede proteção e apoio, e a mulher autoconfiante, que não tem medo de nada e vai à luta, custe o que custar. Ali, exposta aos olhos de todos, ela é apenas a Jhenny. Ou, se olharmos por outro ponto de vista, ali ela é "a" Jhenny, a poderosa, a que estala os dedos e tem o mundo aos seus pés. 

Ela é a Gabriela que não se submete à regras impostas por outros. Ainda não nasceu o Nacib capaz de encabrestá-la. Ela entra e sai quando quer. Dispensa e atrai novamente. É cortejada pelos que antes a julgaram. Quem a dispensou agora a chama de volta. Quem a criticou agora a elogia. Quem a desdenhou agora a quer a todo custo. Mas ela não tem custo. Mulheres como ela não se compram. Não se vendem. Ela é o tesouro maior do pirata que vira o mundo atrás de seu objetivo, é o cume do monte do aventureiro, o prêmio do competidor, o cinturão do lutador, o destino final do viajante. Ela é o que todo homem

Assim é ela, nossa Jhenny, a Jhenny Cravo e Canela.

Prêmio de Consolação



"Precisamos conversar", disse à namorada, que assistia a novela.

"Espera, é o último capítulo", disse a moça sem olhar o rapaz que estava em pé perto da porta.

"Não dá mais. Não tem como continuarmos juntos", disse ele, em pé com os braços cruzados.

"O que?"

E ele começou a falar:

"Quando começamos a namorar, eu sabia muito bem o motivo de você estar sozinha: você foi abandonada pelo noivo que resolveu te trocar pela sua amiga, e ainda fez questão de postar no Facebook que havia te trocado. Quando te conheci você era uma mulher magoada, tomada pela dor da traição. Eu me acheguei a você como um amigo, você lembra? Conversei com você, te aconselhei, por várias vezes enxuguei lágrimas suas enquanto dizia que você iria superar essa. Até que um dia, enquanto víamos um filme juntos no meu quarto, nos deixamos levar pelo momento e só demos conta do que havia acontecido na manha seguinte, quando acordei e vi você nua na minha cama e suas roupas no chão, por cima das minhas. O que eu senti quando olhei você dormindo como um anjo foi mais do que culpa por ter transado com a amiga decepcionada. Pelo contrário, a última coisa que senti foi culpa. Naquele momento eu descobri que te amava. Quando te vi dormindo e suspirando como um bebe que acabou de pegar no sono eu tive a certeza de que te amava mais do que eu podia explicar para mim mesmo, mesmo sabendo que pra você eu era apenas o "amigo fofinho" que te ajudou na sua decepção amorosa. Preferi não te dizer nada sobre o que eu sentia, lembra?

Passaram-se os dias e cada vez ficava mais difícil esconder o que eu sentia. Onde eu ia eu via seu rosto, sentia seu perfume, ouvia sua voz. Seu nome estava presente por todo canto. Eu me sentia um completo imbecil apaixonado. Resolvi te falar do que eu sentia, mesmo correndo o risco de ouvir um 'não' e ainda perder sua amizade. Você me disse que sentia muito afeto por mim, mas ainda não havia esquecido seu noivo, que o amava e pensava nele todos os dias. Então eu, num momento de fraqueza, disse que estava disposto a te ajudar a esquecer seu noivo. Você não respondeu, mas o abraço, o beijo e a noite que tivemos (a segunda) foram como um 'eu aceito'. Daí começamos nosso 'romance', se é que posso chamar assim. Contei para todos que conheço que estava namorando a mulher mais incrível da minha vida. Resolvi esconder os fios de cabelo brancos e fiz regime. Até em academia me matriculei, tudo isso motivado pela alegria de ter você como meu amor. E quanto mais eu me dedicava a você, menos eu sentia o retorno da sua parte.

Por várias vezes você me chamou pelo nome do ex-noivo. Em algumas você se corrigiu, em utras talvez nem tenha percebido. Eu perdoei, já que estávamos no começo e você ainda não havia se recuperado totalmente do relacionamento anterior. Em todas as nossas conversas você citava algo sobre ele. E se desculpava, dizendo que estava se esforçando para me amar do jeito que eu merecia. O tempo passou - um ano, diga-se de passagem - e eu me entreguei por completo. Mas você ainda me chama pelo nome do ex. Ainda fala nele. Ainda tenta me fazer gostar das músicas que ele gostava. Já se passaram um ano e você ainda não o esqueceu.

Então eu decidi que não dá mais. Sim, talvez você tenha se esforçado, mas você não o esquece, e eu não quero ser seu prêmio de consolação, não quero ser um trofeu de vice-campeão. Se depois de um ano você ainda não se convenceu de que seu ex não te quer mais e não consegue levar a vida em frente, sinto dizer mas não posso esperar mais.  Ou eu tenho você por completa, corpo, alma e coração, ou prefiro não ter nada. Se é pra sofrer, prefiro sofrer sozinho do que com uma mulher que não me ama por completo".

Tendo tido isso, abriu a porta e saiu. Ligou o carro e foi embora. Ela o olhou pela janela, ciente de que aquela seria a última vez que o veria novamente. Foi bom enquanto durou ter o Carlos por perto. Aliás, Carlos não. Carlos é o nome do ex.

Gostosa




Algumas ouvem o dia inteiro. Outras as vezes. Algumas, muito pouco. Outras ainda sequer sabem que a palavra tem outro significado não atrelado ao sabor de alimentos. Umas o são naturalmente, receberam esse dom como presente da natureza. Outras gastam alguns Reais em cirurgias para ficarem. Outras tentam com os batidos truques clichês das lojas de departamentos, como o sutiã de bojo ou a calça que "empina o bumbum" - puras propagandas enganosas. Umas recebem como elogio, gostam de ouvir isso mesmo que não assumam. Outras se ofendem, acham uma falta de respeito à condição feminina. Outras dariam tudo para serem chamadas assim, coitadas! As academias são uma espécie de "habitat natural", pois é impossível não encontrar pelo menos uma delas ali, livres, agindo naturalmente, apenas sendo o que são. Também é possível encontrá-las nas ruas, indo de um lugar para o outro, desfilando e exibindo-se, intencionalmente ou não. As vezes se vestem com a clara intenção de se mostrar. Outras tentam disfarçar com roupas largas e desconjuntadas, talvez pelo medo da reação de alguns marmanjos que não sabem a diferença entre admiração e perversão. Algumas usam as roupas das que são, mas como não são, acabam passando o ridículo de se expor com o mínimo de tecido possível e não ouvir nada diferente de "sai da frente". Não estão espalhadas no mundo todo, não. No Brasil as encontramos diariamente. Nos EUA é necessário procurar com um pouco de atenção. Na Europa são um pouco mais raras. Nos vizinhos latinos estão apenas nos programas de TV, exceto entre os hermanos, que também tem o privilégio de as tê-las em proporção igual a nós. As revistas masculinas as exploram. Alguns homens gostam - há os que não sentem nada ao vê-las. Algumas mulheres também gostam. A mídia as usa como forma de ganhar dinheiro. Não há, atualmente na TV, um único comercial de cerveja que não as explore. Alguns movimentos sociais fazem barulho contra essa exploração. Mas muitas delas nem se importam com isso. Gostam mesmo é de serem reconhecidas. 

É, ser gostosa é um conceito bastante confuso. 

Mas enfim, o que é ser gostosa?

Que me desculpem os discípulos de Carpinejar e Caio Fernando Abreu, que vivem de achar um "sentido maior" para tudo, mas ser gostosa não tem nada a ver com personalidade nem caráter. Essas são qualidades ligadas a outro conceito de mulher, não menos importante e não menos belo. Mas estamos falando de mulher gostosa. Para ser gostosa não é necessário ser meiga, doce, bondosa, amável nem nada disso. Ser gostosa é algo ligado única e exclusivamente ao corpo físico, e nada mais. 

Gostosa é aquela mulher que constrange. É aquela que faz os homens ruborizarem pelo simples fato de estarem presentes. Não há machão nem pegador que não se sinta um bobo em sua presença. É impossível não olhar seus atributos físicos. Aquela "conferida" é quase automática. Gostosa é a mulher de seios simétricos, grandes o suficiente para serem notado independente da roupa que ela use. É a mulher com a bunda perfeita, que parece ter sido desenhada previamente e pensada em cada detalhe, em tamanho e beleza tal que fica impossível não olhar e admirar, que harmoniza perfeitamente com a cintura. Gostosa é aquela mulher que mexe os quadris num movimento tão perfeito que parece dançar quando está apenas caminhando. Gostosa é a mulher de sorriso provocante. Aquela que chama um homem sem dizer qualquer palavra. É aquela que diz muito quando apenas balbucia com seus lábios grandes e cheios de desejo. É a mulher de olhos profundos, penetrantes, cheios de sedução. É a mulher que "veste para matar", mas que se veste assim porque tem o que mostrar. Seja de minissaia ou de calça, top ou blusa, uniforme de trabalho ou roupa de academia, é provocante e provoca nos homens os desejos mais profundos e primitivos. Gostosa é a mulher que sabe que é gostosa, e usa isso para atiçar ainda mais homens desconhecidos, que continuarão pensando nela pelo decorrer do dia, no mínimo. Gostosa é a mulher de "corpo violão", com curvas acentuadas que tornam a passagem de olhos um movimento espiral. Gostosa é a mulher que tem um corpo perfeito e sabe usá-lo para ser ainda mais atraente, ainda mais sedutora, ainda mais gostosa. 

Apenas pronunciar a palavra "gostosa" já remete à lembrança algumas delas, que poderiam ser citadas facilmente como modelos de mulher gostosa, se fosse necessário. Faça o teste: pronuncie a palavra "gostosa", mas com ênfase, não como se falasse de uma bolacha recheada, mas como se estivesse adjetivando aquela mulher por quem você nutre aquela admiração sensual escondida no mais profundo da sua masculinidade. Deixe os olhos semicerrados, pronuncie a primeira sílaba devagar, e segure no S, mas não como os cariocas, como um paulista que não tem pressa de terminar de falar para não quebrar o encanto da gostosa admirada. Pronuncie a segunda sílaba com toda a entonação que a gramática portuguesa exige em palavras paroxítonas. E termine a palavra com a última sílaba pronunciada rapidamente, como se essa sílaba já nem fizesse mais diferença, pois tudo o que você queria dizer já foi dito antes, agora é só admirar a mulher elogiada. GOS - TO - SA! 

Fez o teste? Alguma delas veio à sua mente? Bom, muito bom. Agora pense nessa mulher não como um brinquedo de loja de preço único nem como um objeto criado para satisfazer seu tesão reprimido, mas como uma obra de arte a ser admirada, como um quadro caríssimo que você olharia por horas, sabendo que aquilo tem um valor artístico tal e um preço tão alto que suas condições semi-miseráveis sequer te possibilitariam qualquer coisa a não ser admirar. É assim que um homem se sente diante de uma mulher gostosa. 

Agora vamos acalmar os ânimos das militantes feministas, que já devem estar à ponto de ter um AVC com tamanho desrespeito à mulher. Não, moça, isso não é desrespeito. Pelo contrário, é admiração. Uma mulher gostosa é algo para se admirar horas, dias. Ser gostosa é ser o máximo que nossa pobre humanidade permite numa mulher. Ser gostosa é, antes de tudo, a última instância da condição humana, ir até os limites entre o humano e o divino. 

Agora, uma coisa é certa: ser gostosa é um dos atributos da beleza, mas não é imprescindível. Algumas mulheres não tem qualquer dos traços de gostosidade (segura essa, Aurélio) citados acima e ainda assim são mulheres interessantíssimas, provocantes e instigantes. Algumas mulheres sem qualquer característica de uma gostosa são mulheres doces, belas, puras, de sorriso fácil e carisma cativante. Outras tem todos os atributos da mulher gostosa citados acima, mas são mulheres insuportáveis, intragáveis, irritadiças, de trato difícil, com quem fica impossível conviver mais do que alguns minutos. Burrice é pautar a personalidade de uma mulher pelo tamanho da bunda ou dos seios. Ser gostosa não faz uma mulher ser melhor que a outra. A torna apenas mais gostosa. Só isso. Umas são gostosas e outras não.  

Não é preciso ser bonita para ser gostosa. Nem é preciso ser gostosa para ser bonita. Você é bonita como é. 

Mas se for gostosa, ah, muda muita coisa!